Esta semana a seguinte questão me foi proposta por James Cimino, da Folha de São Paulo (estas não são as palavras exatas dele, estou parafraseando) : considerando que certos valores tradicionais como família, casamento, religião, monogamia, etc estão em geral associados a movimentos políticos conservadores de direita, os quais classicamente e com freqüência também se caracterizam por variados graus de desaprovação ou mesmo hostilidade ao homossexualismo, como entender, como contextualizar, como interpretar a existência e o crescimento de alguns movimentos modernos de gays que adotam precisamente esses valores e que por vezes se classificam explicitamente como “de direita” ?
Esse tipo de movimento já existe nos EUA há algum tempo, mas no Brasil (pelo menos até onde eu saiba) é algo mais ou menos recente. Fui então examinar alguns sites como o Gays de Direita e o Q-Libertários e rapidamente encontrei neles levantadas questões que desviam de forma bastante interessante das mais estereotipicamente associadas a movimentos gays. Por exemplo, no Gays de Direita são defendidas (entre outras) as seguintes posicões :
- Questionamento da caracterizacão do perfil do comportamento homofóbico no Brasil como descrito por uma parte dos movimentos gays. Observação de que se examinamos por exemplo mais detidamente os casos de assassinato de homossexuais listados por ONGs como manifestação violenta de homofobia, verificamos que muitos foram cometidos por outros homossexuais. Não seria o caso de rever a metodologia dos levantamentos que buscam documentar homofobia? (Note : o site positivamente e abundantemente não questiona que tal manifestação violenta efetivamente exista, e aliás pelo contrário, prega revolucionariamente uma resistência proativa e independente ao invés de passiva e paternalista contra ela.)
- Questionamento da conveniência de políticas e programas sociais para “conscientizar” a populacão sobre homossexualismo em sociedades relativamente seguras para os homossexuais. Observação de que diversos movimentos gays ao redor do mundo parecem concentrar seus esforços muito mais na direção de buscar “criminalizar a homofobia” em países onde ela absolutamente não é uma politica oficial do que em se esforçar para combater de forma eficaz a homofobia oficial em países onde ela de fato o é.
- Questionamento de que seja automaticamente absurdo ou homofóbico que as forças armadas considerem inadequado admitirem indivíduos de comportamento estereotipicamente homossexual para posições de comando e combate.
- Questionamento de que haja incompatibilidade intrínsenca entre ser cristão e ser gay.
- Como ja citado acima, questionamento de uma politica passiva e paternalista de defesa da integridade física dos gays.
Agora, notemos : alguns desses pontos já foram e são levantados por organizações políticas “de direita” muito pouco simpáticas aos movimentos gays. A novidade está em eles serem levantado por movimentos gays. Existiria alguma contradição nisso?
Bem, comecemos por observar que a rigor existem motivos mais ou menos óbvios para gays se identificarem com certos aspectos do movimento liberal em geral e libertário em particular. Afinal, uma grande parte do sentido politico dos movimentos gays está em ver asseguradas certas liberdades pessoais e certos direitos civis fundamentais. Infelizmente, tem sido uma tendência (que eu regularmente critico) entre muitos libertários contemporâneos concentrarem excessivamente (por vezes quase dogmaticamente) suas preocupações e arcabouço filosófico em liberdades econômicas. É para mim uma distorção que libertarianismo de um lado e liberalismo econômico clássico do outro tenham se tornado quase sinônimos aos olhos de grande parte da percepção pública e muitas vezes até mesmo entre seus próprios proponentes. Essa forte tendência, equivocada que seja, é porém muito real, e acabou criando a situação de fato de que os defensores de liberdades econômicas, tradicionalmente associados à “direita”, vezes demais pouco ou nada fazem para defender certas liberdades civis em outras esferas, e muito pelo contrário, freqüentemente buscam mesmo cerceá-las.
Isso porém é, para mim, como já coloquei, uma distorção, e seria muito natural e desejável que um movimento verdadeiramente libertário abraçasse junto com a causa da liberdade econômica e de certas garantias fundamentais ao direito de propriedade uma postura mais ampla de defesa de outros tipos de liberdade individual que (a meu ver) absolutamente não podem ser resumidas ou condensadas à esfera das relações econômicas. Então sob este aspecto eu vejo a aparente contradição entre ser gay e ser de direita como na verdade circunstancialmente criada por uma necessidade inconscientemente auto-imposta de categorizar movimentos politicos segundo categorias preestabelecidas que são imensamente mais arbitrárias do que normalmente estamos dispostos a conceder. Mas dentro de uma postura libertária que parta de primeiros princípios, me parece absolutamente coerente um movimento que lute simultaneamente por uma diversidade de direitos individuais que englobe simultaneamente a liberdade econômica e a liberdade de identidade sexual. Então, em resumo, certamente não vejo nada de intrinsecamente problemático no conceito de “gays de direta” se por “direita” entendermos a direção política genérica de defender a primazia de certos direitos individuais, em particular liberdades econômicas, e em especial em oposição a ideologias e posições políticas mais coletivizantes.
Inclusive, ao refletir sobre a questão, me pareceu cada vez mais que o verdadeiro e mais interessante conflito aqui ilustrado não está entre gays versus direita, e sim mais amplamente entre grupos que se percebem como oprimidos e aqueles que percebem como sendo seus opressores. Existe uma tendência de chamar tais grupos de “minorias”, mas eu considero esse termo altamente equivocado e problemático; nem toda minoria é oprimida (consideremos os ricos) e nem todos os grupos que em certos contextos se percebem como oprimidos podem ser razoavelmente chamados de minoria (consideremos os pobres). Aliás, mais amplamente, os grupos que se percebem como oprimidos não apenas não precisam necessariamente ser numericamente uma minoria, também não precisam estar em desvantagem econômica, intelectual ou por nenhum outra medida particular. O que eles têm em comum é a percepção que de alguma forma estão sendo injustamente “excluídos” como grupo de algum tipo de privilégio ou direito, de que estão sendo alvo de algum tipo de opressão discriminatória.
Existe uma enorme coleção de motivos pelos quais um grupo pode vir a se encontrar nessa posição, mas vou me concentrar aqui nos diferentes tipos de reação. E vou começar por fazer uma observação altamente politicamente incorreta, que se aplica ainda mais fortemente aos casos em que a opressão é real (como freqüentemente é) ao invés de imaginada : Oppresed people suck. Diante da opressão, uma reação indigna e despersonificamente mas absolutamente compreensível e comum é a mais completa submissão e servilismo. Isso pode se dar por puro pragmatismo, mas bem mais problemático do ponto de vista psicológico é conseguir resistir ao raciocínio de que “se eu estou sendo oprimido, eu devo ser mesmo uma droga”. Não devemos porém ignorar que complementar a esse, e um pouco mais sutil em sua indesejabilidade, mas também extremamente danoso, é o raciocínio “se eu estou sendo oprimido, tudo em meus opressores é uma droga”. Ambas são armadilhas conceituais das quais pode ser muito difícil se desapegar. O resultado é que é muito raro um grupo oprimido que ingresse num processo de auto-afirmação conseguir se libertar de uma retórica reativa na qual ironicamente se autodefina em relação ao grupo enxergado como opressor ao invés de como portador de uma identidade legitimamente distinta. É muito difícil remover de si mesmo o câncer da identidade de “vítima”.
Porém, observe-se que exceto nos casos patológicos em que se possa seriamente argumentar que ser alvo de vitimização tenha sido uma posição ativamente buscada, não sou eu que me escolho fazer vítima; é o meu opressor. Ser vítima é algo que sou circunstancialmente; ser opressor é uma livre escolha. Então essa relaçao é muito mais intrinsecamente parte da identidade do opressor do que da minha. É muito, muito difícil atingir individualmente esse grau de segurança porém, e se libertar do opressor como definidor da essência de quem eu sou. Mas sem fazê-lo, introjetamos a opressão e a tornamos parte de nossa própria identidade; ela deixa de necessitar do opressor para fazer parte da nossa psique. Um grupo (ou indivíduo) que queira verdadeiramente se libertar de sua condição de oprimido precisa portanto lutar não apenas contra as fontes e causas objetivas de opressão, mas tambem se libertar de sua identidade de vítima. Precisa se sentir confortável com suas idiosincrasias e com o fato de que possivelmente tenha concretamente uma identidade distinta e *independente* da do grupo percebido como opressor (onde independente não precisa significar nem idêntica e nem oposta).
Infelizmente, alguns grupos que se percebem como oprimidos correm, em busca de auto-afirmação reacionária, a cega e automaticamente rejeitar todo e qualquer valor ou característica do grupo enxergado como opressor. Meus opressores ouvem a essa tipo de música? Vou me recusar a fazê-lo. Vestem certo tipo de roupa? Idem. Seguem certo tipo de religião? Idem. Exemplos disso não são difíceis de instanciar.
Complementarmente, outros grupos que se percebem como oprimidos correm a fazer o exato oposto, e em busca de auto-afirmação, digamos, usurpatória, passam a cega e automaticamente adotar todo e qualquer valor e característica do grupo enxergado como opressor. Ignorando suas próprias especificidades, suas próprias necessidades e suas próprias aspirações, e muitas vezes agindo contrariamente a elas, buscam reagir à opressão emulando a identidade do grupo percebido como opressor. Meus opressores são insensíveis e violentos? Então eu também serei. Agem de forma egoísta e narcisista? Então farei o mesmo. Colocam o sucesso profissional acima de considerações emocionais? Vamos lá. Exemplos desse tipo também não são difíceis de instanciar.
O resultado é que tais grupos continuam se definindo em termos de seus opressores, passando então tragicamente a oprimirem a si mesmos ao tomarem para si a tarefa de ativamente negarem sua própria e legítima identidade.
Me parece portanto extremamente saudável que os movimentos gays ou quaisquer outros movimentos de grupos que se percebam como oprimidos caminhem na direção de eliminar a condição de “vítimas” como fundadora de sua identidade, por mais que isso possa ser psicologicamente difícil (ou politicamente inconveniente), e que ao invés disso consigam eles mesmos elaborarem e perceberem como legítimas e perfeitamente aceitáveis suas próprias características, pensem os outros o que quiserem. Claro, resta então a luta para serem deixados em paz para assumirem pacificamente essa sua identidade, mas a identidade em si mesma não deve ser reativa, e não deve ter a percepção da sua legitimidade baseada na aprovação dos opressores. Libertar-se internamente da necessidade de buscar aprovação dos opressores como pré-condição para se sentir confortável com sua própria identidade é um passo absolutamente gigantesco. Perto dele, libertar-se da opressão objetiva é quase comparativamente fácil.
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Um comentário final. É mais ou menos fácil (ou deveria ser) enxergar a absurdidade de países como a Uganda que *hoje* consideram leis impondo nada menos que pena de morte para homossexuais. E pelo menos aqui deste lado do Atlântico, soa muito bizarro que em sociedades inteiras o sexo fora do casamento seja punido da mesma forma. Gostaria porém de convidar o leitor a voltar o foco do seu julgamento crítico para algo muito mais difícil de avaliar objetivamente : nós mesmos. O fato é que apesar de todos os progressos e pretensa modernidade de que usufruimos nas sociedades ocidentais atuais, não apenas homossexualidade mas sexo em geral ainda é algo extensamente regulamentado, regulado, reprimido, perseguido, censurado, escondido. Existe ainda toda uma infinidade inclusive de *leis* alucinadas e profundamente opressivas regulando comportamento sexual em sociedades que em princípio encaramos como “modernas” e “livres”. A intensidade e extensão desse controle são enormemente subestimadas e subpercebidas como conseqüência auto-reforçante da artificial limitação de experiências a que estamos sujeitos em decorrência de sua própria existência.











