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Gays de Direita

Saturday, March 27th, 2010

Esta semana a seguinte questão me foi proposta por James Cimino, da Folha de São Paulo (estas não são as palavras exatas dele, estou parafraseando) : considerando que certos valores tradicionais como família, casamento, religião, monogamia, etc estão em geral associados a movimentos políticos conservadores de direita, os quais classicamente e com freqüência também se caracterizam por variados graus de desaprovação ou mesmo hostilidade ao homossexualismo, como entender, como contextualizar, como interpretar a existência e o crescimento de alguns movimentos modernos de gays que adotam precisamente esses valores e que por vezes se classificam explicitamente como “de direita” ?

Esse tipo de movimento já existe nos EUA há algum tempo, mas no Brasil (pelo menos até onde eu saiba) é algo mais ou menos recente. Fui então examinar alguns sites como o Gays de Direita e o Q-Libertários e rapidamente encontrei neles levantadas questões que desviam de forma bastante interessante das mais estereotipicamente associadas a movimentos gays. Por exemplo, no Gays de Direita são defendidas (entre outras) as seguintes posicões :

  • Questionamento da caracterizacão do perfil do comportamento homofóbico no Brasil como descrito por uma parte dos movimentos gays. Observação de que se examinamos por exemplo mais detidamente os casos de assassinato de homossexuais listados por ONGs como manifestação violenta de homofobia, verificamos que muitos foram cometidos por outros homossexuais. Não seria o caso de rever a metodologia dos levantamentos que buscam documentar homofobia? (Note : o site positivamente e abundantemente não questiona que tal manifestação violenta efetivamente exista, e aliás pelo contrário, prega revolucionariamente uma resistência proativa e independente ao invés de passiva e paternalista contra ela.)
  • Questionamento da conveniência de políticas e programas sociais para “conscientizar” a populacão sobre homossexualismo em sociedades relativamente seguras para os homossexuais. Observação de que diversos movimentos gays ao redor do mundo parecem concentrar seus esforços muito mais na direção de buscar “criminalizar a homofobia” em países onde ela absolutamente não é uma politica oficial do que em se esforçar para combater de forma eficaz a homofobia oficial em países onde ela de fato o é.
  • Questionamento de que seja automaticamente absurdo ou homofóbico que as forças armadas considerem inadequado admitirem indivíduos de comportamento estereotipicamente homossexual para posições de comando e combate.
  • Questionamento de que haja incompatibilidade intrínsenca entre ser cristão e ser gay.
  • Como ja citado acima, questionamento de uma politica passiva e paternalista de defesa da integridade física dos gays.

Agora, notemos : alguns desses pontos já foram e são levantados por organizações políticas “de direita” muito pouco simpáticas aos movimentos gays. A novidade está em eles serem levantado por movimentos gays. Existiria alguma contradição nisso?

Bem, comecemos por observar que a rigor existem motivos mais ou menos óbvios para gays se identificarem com certos aspectos do movimento liberal em geral e libertário em particular. Afinal, uma grande parte do sentido politico dos movimentos gays está em ver asseguradas certas liberdades pessoais e certos direitos civis fundamentais. Infelizmente, tem sido uma tendência (que eu regularmente critico) entre muitos libertários contemporâneos concentrarem excessivamente (por vezes quase dogmaticamente) suas preocupações e arcabouço filosófico em liberdades econômicas. É para mim uma distorção que libertarianismo de um lado e liberalismo econômico clássico do outro tenham se tornado quase sinônimos aos olhos de grande parte da percepção pública e muitas vezes até mesmo entre seus próprios proponentes. Essa forte tendência, equivocada que seja, é porém muito real, e acabou criando a situação de fato de que os defensores de liberdades econômicas, tradicionalmente associados à “direita”, vezes demais pouco ou nada fazem para defender certas liberdades civis em outras esferas, e muito pelo contrário, freqüentemente buscam mesmo cerceá-las.

Isso porém é, para mim, como já coloquei, uma distorção, e seria muito natural e desejável que um movimento verdadeiramente libertário abraçasse junto com a causa da liberdade econômica e de certas garantias fundamentais ao direito de propriedade uma postura mais ampla de defesa de outros tipos de liberdade individual que (a meu ver) absolutamente não podem ser resumidas ou condensadas à esfera das relações econômicas. Então sob este aspecto eu vejo a aparente contradição entre ser gay e ser de direita como na verdade circunstancialmente criada por uma necessidade inconscientemente auto-imposta de categorizar movimentos politicos segundo categorias preestabelecidas que são imensamente mais arbitrárias do que normalmente estamos dispostos a conceder. Mas dentro de uma postura libertária que parta de primeiros princípios, me parece absolutamente coerente um movimento que lute simultaneamente por uma diversidade de direitos individuais que englobe simultaneamente a liberdade econômica e a liberdade de identidade sexual. Então, em resumo, certamente não vejo nada de intrinsecamente problemático no conceito de “gays de direta” se por “direita” entendermos a direção política genérica de defender a primazia de certos direitos individuais, em particular liberdades econômicas, e em especial em oposição a ideologias e posições políticas mais coletivizantes.

Inclusive, ao refletir sobre a questão, me pareceu cada vez mais que o verdadeiro e mais interessante conflito aqui ilustrado não está entre gays versus direita, e sim mais amplamente entre grupos que se percebem como oprimidos e aqueles que percebem como sendo seus opressores. Existe uma tendência de chamar tais grupos de “minorias”, mas eu considero esse termo altamente equivocado e problemático; nem toda minoria é oprimida (consideremos os ricos) e nem todos os grupos que em certos contextos se percebem como oprimidos podem ser razoavelmente chamados de minoria (consideremos os pobres). Aliás, mais amplamente, os grupos que se percebem como oprimidos não apenas não precisam necessariamente ser numericamente uma minoria, também não precisam estar em desvantagem econômica, intelectual ou por nenhum outra medida particular. O que eles têm em comum é a percepção que de alguma forma estão sendo injustamente “excluídos” como grupo de algum tipo de privilégio ou direito, de que estão sendo alvo de algum tipo de opressão discriminatória.

Existe uma enorme coleção de motivos pelos quais um grupo pode vir a se encontrar nessa posição, mas vou me concentrar aqui nos diferentes tipos de reação. E vou começar por fazer uma observação altamente politicamente incorreta, que se aplica ainda mais fortemente aos casos em que a opressão é real (como freqüentemente é) ao invés de imaginada : Oppresed people suck. Diante da opressão, uma reação indigna e despersonificamente mas absolutamente compreensível e comum é a mais completa submissão e servilismo. Isso pode se dar por puro pragmatismo, mas bem mais problemático do ponto de vista psicológico é conseguir resistir ao raciocínio de que “se eu estou sendo oprimido, eu devo ser mesmo uma droga”. Não devemos porém ignorar que complementar a esse, e um pouco mais sutil em sua indesejabilidade, mas também extremamente danoso, é o raciocínio “se eu estou sendo oprimido, tudo em meus opressores é uma droga”. Ambas são armadilhas conceituais das quais pode ser muito difícil se desapegar. O resultado é que é muito raro um grupo oprimido que ingresse num processo de auto-afirmação conseguir se libertar de uma retórica reativa na qual ironicamente se autodefina em relação ao grupo enxergado como opressor ao invés de como portador de uma identidade legitimamente distinta. É muito difícil remover de si mesmo o câncer da identidade de “vítima”.

Porém, observe-se que exceto nos casos patológicos em que se possa seriamente argumentar que ser alvo de vitimização tenha sido uma posição ativamente buscada, não sou eu que me escolho fazer vítima; é o meu opressor. Ser vítima é algo que sou circunstancialmente; ser opressor é uma livre escolha. Então essa relaçao é muito mais intrinsecamente parte da identidade do opressor do que da minha. É muito, muito difícil atingir individualmente esse grau de segurança porém, e se libertar do opressor como definidor da essência de quem eu sou. Mas sem fazê-lo, introjetamos a opressão e a tornamos parte de nossa própria identidade; ela deixa de necessitar do opressor para fazer parte da nossa psique. Um grupo (ou indivíduo) que queira verdadeiramente se libertar de sua condição de oprimido precisa portanto lutar não apenas contra as fontes e causas objetivas de opressão, mas tambem se libertar de sua identidade de vítima. Precisa se sentir confortável com suas idiosincrasias e com o fato de que possivelmente tenha concretamente uma identidade distinta e *independente* da do grupo percebido como opressor (onde independente não precisa significar nem idêntica e nem oposta).

Infelizmente, alguns grupos que se percebem como oprimidos correm, em busca de auto-afirmação reacionária, a cega e automaticamente rejeitar todo e qualquer valor ou característica do grupo enxergado como opressor. Meus opressores ouvem a essa tipo de música? Vou me recusar a fazê-lo. Vestem certo tipo de roupa? Idem. Seguem certo tipo de religião? Idem. Exemplos disso não são difíceis de instanciar.

Complementarmente, outros grupos que se percebem como oprimidos correm a fazer o exato oposto, e em busca de auto-afirmação, digamos, usurpatória, passam a cega e automaticamente adotar todo e qualquer valor e característica do grupo enxergado como opressor. Ignorando suas próprias especificidades, suas próprias necessidades e suas próprias aspirações, e muitas vezes agindo contrariamente a elas, buscam reagir à opressão emulando a identidade do grupo percebido como opressor. Meus opressores são insensíveis e violentos? Então eu também serei. Agem de forma egoísta e narcisista? Então farei o mesmo. Colocam o sucesso profissional acima de considerações emocionais? Vamos lá. Exemplos desse tipo também não são difíceis de instanciar.

O resultado é que tais grupos continuam se definindo em termos de seus opressores, passando então tragicamente a oprimirem a si mesmos ao tomarem para si a tarefa de ativamente negarem sua própria e legítima identidade.

Me parece portanto extremamente saudável que os movimentos gays ou quaisquer outros movimentos de grupos que se percebam como oprimidos caminhem na direção de eliminar a condição de “vítimas” como fundadora de sua identidade, por mais que isso possa ser psicologicamente difícil (ou politicamente inconveniente), e que ao invés disso consigam eles mesmos elaborarem e perceberem como legítimas e perfeitamente aceitáveis suas próprias características, pensem os outros o que quiserem. Claro, resta então a luta para serem deixados em paz para assumirem pacificamente essa sua identidade, mas a identidade em si mesma não deve ser reativa, e não deve ter a percepção da sua legitimidade baseada na aprovação dos opressores. Libertar-se internamente da necessidade de buscar aprovação dos opressores como pré-condição para se sentir confortável com sua própria identidade é um passo absolutamente gigantesco. Perto dele, libertar-se da opressão objetiva é quase comparativamente fácil.

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Um comentário final. É mais ou menos fácil (ou deveria ser) enxergar a absurdidade de países como a Uganda que *hoje* consideram leis impondo nada menos que pena de morte para homossexuais. E pelo menos aqui deste lado do Atlântico, soa muito bizarro que em sociedades inteiras o sexo fora do casamento seja punido da mesma forma. Gostaria porém de convidar o leitor a voltar o foco do seu julgamento crítico para algo muito mais difícil de avaliar objetivamente : nós mesmos. O fato é que apesar de todos os progressos e pretensa modernidade de que usufruimos nas sociedades ocidentais atuais, não apenas homossexualidade mas sexo em geral ainda é algo extensamente regulamentado, regulado, reprimido, perseguido, censurado, escondido. Existe ainda toda uma infinidade inclusive de *leis* alucinadas e profundamente opressivas regulando comportamento sexual em sociedades que em princípio encaramos como “modernas” e “livres”. A intensidade e extensão desse controle são enormemente subestimadas e subpercebidas como conseqüência auto-reforçante da artificial limitação de experiências a que estamos sujeitos em decorrência de sua própria existência.

Onde Os Hidrantes Têm Antenas

Monday, March 1st, 2010

Hidrante com antena

Uma das coisas que notei ao me mudar para cá, apesar de prosaica, foi crescendo na periferia da minha consciência como incômoda pelo sua inexplicabilidade. Estou falando do fato de que aqui os hidrantes têm antenas.

Ok, pode ser que no final das contas nem seja tão inexplicável assim, mas a questão é que eu nunca tinha visto hidrantes com antenas antes, e embora eu já tenha desenvolvido várias teorias sobre o assunto, o fato é que eu não sei com segurança para que servem.

Naturalmente um dos primeiros pensamentos que surge é que sejam realmente antenas no sentido mais tecnológico, que sirvam para receber e/ou transmitir algum tipo de informação. Divertida que seja essa idéia, isso não parece nem um pouco provável.

A segunda hipótese genérica é que sirva para tornar os hidrantes mais fáceis de achar / localizar / ver. Mas como é que alguém não veria um hidrante? Não é como se fosse algo discreto para começar. Então eu fiquei pensando sobre situações em que isso seria útil. Meu primeiro pensamento foi o de carros estacionados na frente do hidrante e tornando ele pouco visível, mas isso não apenas é ilegal como a antena não ajudaria tanto assim. Então eu pensei que talvez fosse para evitar colisões com o hidrante estacionando o carro. Afinal, especialmente com as SUVs americanas, objetos baixos não são visíveis a curta distância. Mas isso também não me pareceu muito razoáve; o hidrante fica na calçada e não no meio-fio.

Outro hidrante com antena

Minha hipótese atual veio com as recentes tempestades de neve. Talvez a antena seja para o caso de se o hidrante ficar completamente soterrado (algo não improvável numa nevasca) você continuar conseguindo encontrá-lo através da antena. Não sei se é esse o real motivo, mas foi a melhor hipótese que conseguir bolar até agora.

Seja como for, no processo de tentar achar uma resposta acabei achando este site aqui dedicado a fotos de hidrantes. O qual, aliás, com data de 22 de janeiro de 2006 mostra um hidrante com antena em Illinois, a qual parece provocar surpresa também em quem ali postou a foto.

Prioridades Libertárias No Brasil

Saturday, February 20th, 2010

Recentemente o Pedro escreveu um texto comentando que falta ao movimento liberal no Brasil escolher algumas causas concretas, alguns ítens de ação política objetiva em torno do qual o movimento possa se organizar mais efetivamente e ter algum impacto na sociedade que vá além do (constrangedor não-impacto) produzido por websites, palestras e publicações.

Até aí, eu concordo completamente e entusiasticamente. É preciso começar a falar de propostas concretas ao invés de abstratas sobre como agir, e é preciso persegui-las no mundo real, e não somente no mundo abstrato do debate retórico. Ficar fazendo lobby de ideais genéricos sem defender propostas objetivas e concretas para o Brasil hoje gera como principal resultado um (não muito grande) grupo de pessoas dizendo umas pras outras “é isso mesmo!” e celebrando fraternalmente a sua irrelevância enquanto tudo prossegue exatamente como antes.

Ao invés disso, ou em adição a isso, é preciso fundar partidos, é preciso ocupar cargos públicos, e preciso escrever leis e lutar para que sejam aprovadas, enfim, é preciso de fato fazer alguma coisa que tenha alguma chance de mudar alguma coisa. Não que isso seja fácil ou agradável; falar em ocupar cargos públicos é como dizer que alguém tem que ir lá na fossa desentupir o esgoto. Mas o sistema não vai se consertar sozinho, e ficarmos *todos* sentados olhando e concordando que alguém deveria fazer alguma coisa não vai resolver nada. Alguém tem que se dispor a ir lá de fato concretamente fazer alguma coisa, e essas pessoas, pensem bem, terão que vir do nosso meio, terão que ser pessoas entre nós mesmos, e não inexistentes pessoas míticas que tocadas pela nossa retórica resolverão tomar uma atitude.

Em seu texto, Pedro fala em “movimento liberal”, mas acho que isso se aplica ainda mais fortemente ao incipiente movimento libertário no Brasil (o qual aliás me interessa bem mais do que o movimento liberal), ao qual ainda mais fortemente faltam bandeiras e planos concretos em torno dos quais sedimentar o movimento e nos quais focalizar os esforços.

Então vejamos quais são, resumidamente, os três ítens que Pedro elege para colocar como possíveis boas escolhas de ítens prioritários numa agenda concebida para se afastar de uma situação “em que a defesa do liberalismo não passa de um passatempo burguês relativamente inconseqüente” :

  • A instituição obrigatória da discriminação entre preço e imposto em todas as notas fiscais, em todas as instâncias.
  • A abolição de toda e qualquer propaganda estatal, inclusive de empresas estatais.
  • Uma emenda constitucional que fale, à americana, em probable cause

Para em seguida se por a esclarecer que “Aristóteles explica na Retórica que o entimema é o mais poderoso recurso persuasivo.” E depois não entende por que “posturas liberais não encontram mais interesse no Brasil”.

Pois esse é exatamente um dos motivos por que o projeto libertário falha repetidamente em despertar maior interesse. Porque aqueles que no Brasil mais fortemente podemos identificar como expoentes do pensamento liberal / libertário vezes demais produzem propostas como essas, de ficar listando preços em notas fiscais e então se põem a falar de Aristóteles. Não é surpreendente que diante disso o sujeito ali da esquina resolva votar no Lula.  Listar imposto na nota fiscal? Isso sim é ficar no mundo das idéias bonitinhas sem qualquer conseqüência prática. As verdadeiras batalhas, que valem a pena, não estão sendo lutadas, pelo menos não pelos que pretensamente representam o pensamento libertário.

Então sim, eu concordo que é preciso ter propostas práticas, mas isso de tornar obrigatório listar o imposto na nota fiscal é precisamente um exemplo de medida retórico-tecnocrática com apelo popular inexistente e impacto prático provavelmente zero. Além disso, mutíssimo ironicamente implica em custos operacionais para ser implementada e resulta em ainda mais regulamentação sobre como alguém deve emitir uma nota fiscal. Note-se, sempre que se cria a obrigatoriedade de as coisas serem feitas de um certo jeito por mandado estatal, existe o implícito “senão nós vamos aí te pegar”. Não que talvez não pudesse em tese haver um certo aumento do grau de conscientização geral sobre a carga tributária com a adoção dessa medida, mas como bandeira e causa prioritária de um movimento liberal / libertário? Isso tem absolutamente todas as características do “passatempo burguês relativamente inconseqüente” que Pedro caracteriza como preâmbulo para propor causas mais concretas, relevantes e que tenham – como ele muito corretamente coloca – alguma chance de mobilizar a platéia.

Agora, imagine você, como porta-voz de um partido liberal / libertário, colocado num debate público junto a outros movimentos políticos. Pede-se então ao representante do PV que coloque uma das causas caras e centrais ao seu partido e ele responde “acabar com a criminalização  da maconha“. Pede-se ao sujeito do PSTU que faça o mesmo e ele diz “estatizar todos os bancos“. Pede-se então o sujeito do PSDB e ele diz “implementar o parlamentarismo“. São todas propostas de grande relevância, com sérias conseqüências, que esses partidos efetivamente defendem de forma muito concreta na esfera da ação política e que definem parte de uma identidade forte e clara. Evidentemente nenhum desses objetivos será magicamente atingido amanhã, ou talvez nunca, mas são propostas concretas para um determinado futuro para o Brasil, e quem se identificar com essa direção genérica certamente entenderá que na impossibilidade prática  de mudar tudo do dia pra noite os partidos defenderão então medidas parciais e intermediárias visando chegar no objetivo proposto. Bem, então pergunta-se o mesmo a você… e você responde “obrigar que todas as notas fiscais discriminem o imposto”? Essa é uma medida simultaneamente de pouquíssimas conseqüências práticas diretas, que em si mesma não muda absolutamente nada, não diz quase nada sobre sua identidade (ou melhor, diz todas as coisas erradas sobre ela) e adicionalmente com apelo popular zero.

A segunda proposta também apresenta sérios problemas. Seu maior mérito, percebido pelo Diogo mas aparentemente não percebido pelo próprio Pedro, não tem absolutamente nada a ver com prevenir falcatruas. Tem sim a ver com o fato de que a propaganda estatal conflita *diretamente* com o livre exercício da liberdade de expressão. Esse é mais um clássico exemplo de cripto-totalitarismo, de uma forma similar (como apontado pelo Diogo) à concessão de subsídios. Ora, como é que o governo impede a *mim* de falar dando dinheiro para veículos de comunicação aleatórios? Pois então observe para começar que o governo é atualmente um dos maiores anunciantes no mercado. As redes de televisão aberta, os jornais, as rádios, as revistas – todos vivem primordialmente da receita de anúncios. Você acha *mesmo* que isso não influencia quais tipos de conteúdo os veículos de comunicação estarão dispostos, ou mesmo capacitados, a veicular?

Porém, importante que o ponto da propaganda estatal seja, o Pedro aplica a ele a lógica binária das soluções mágicas : “Vamos proibir tudo”. Ora bolas, isso significa então que o governo não pode divulgar datas de campanhas de vacinação? Ou datas de eleições? Ou informar o público sobre mudanças importantes na legislação? Aliás, nem sequer é verdade a premissa básica do ponto do Pedro, que “governo não concorre”. O sistema de metrô, sob administração estatal que esteja num certo lugar, certamente concorre com outros meios de transporte de massa, como ônibus, que estarão possivelmente sob administração privada. A Petrobrás, como franquia de postos de gasolina, certamente concorre com as outras. E pode certamente ser a decisão perfeitamente ótima e estratégica, financeira – e até logisticamente! – correta anunciar esses serviços, sem haver qualquer falcatrua ou desperdício ocorrendo, aliás muito pelo contrário, pode ser precisamente a forma de administrar tais empreendimentos que gere mais retorno financeiro e portanto menos use recursos públicos do contribuinte no final das contas. Claro, pode-se questionar se o governo deveria estar administrando certas coisas para começar, mas esta é outra questão completamente separada.

Agora, evidentemente que o abuso da propaganda estatal no Brasil atingiu as raias do surreal, mas o que é preciso fazer é regulamentar o que é e o que não é uso aceitável dessa propaganda. Instâncias de deslavada autopromoção política produzida e veiculada com o dinheiro público para divulgar “realizações” de certas administrações são ridiculamente injustificáveis, assim como o são campanhas de lavagem cerebral aleatória para promover causas ideológicas caras à administração corrente. Mas “vamos proibir tudo” é uma solução não só fora da realidade como indesejável. (Aliás, mais genericamente, “vamos proibir tudo” raramente é uma solução desejável; até para matar pessoas tem exceções importantíssimas. É muito frustrante que os liberais / libertários ao quererem se opor aos radicalismos maniqueístas dos esquerdofrênicos freqüentemente o façam adotando a mesma visão distopicamente bipolar, apenas com sinal trocado.)

Finalmente, tem a terceira proposta. E aí, mais uma vez, eu concordo com o Diogo. O problema aqui não é realmente com a constituição ou com as leis. Inclusive de forma genérica a nossa constituição, na seção de direitos individuais, já dá considerável respaldo para leis e regulamentos mais específicos nesse sentido, se acharmos importante lutar por eles. O que uma emenda constitucional acrescentaria a isso? Aliás, não que a constituição brasileira precise *crescer* mais ainda; eu acho que quaisquer propostas de emenda constitucional no Brasil coerentes com a proposta liberal / libertária provavelmente deveriam ser na direcao de *eliminar*, não de acrescentar. Mas voltando à questão de “probable cause” : o problema atual da relação da polícia com a sociedade não deriva primordialmente da inadequação do aparato jurídico e sim com a completa falência das instituições, uma falência que tem como uma de suas maiores causas a insana e altamente lucrativa criminalização da produção, distribuição, venda e uso de drogas. Se você quer melhorar a relação da polícia com a sociedade, que tal começar não colocando tanto a polícia quanto a sociedade na insustentável posição de que a maior parte das pessoas é forçada pelo governo a financiar diretamente o crime organizado para poder exercer sua liberdade individual de escolha de fumar ou cheirar o que bem entender? Isso sim talvez fizesse alguma diferença.

O que nos leva já a uma proposta que essa sim, tem enormes conseqüências práticas, com ramificações imensas que muito transcendem a liberdade individual, é uma bandeira política concreta, clara e de grande interesse, relevância e apelo popular, e completamente consistente com os objetivos libertários : é preciso acabar com essa insanidade de proibir o uso recreativo de entorpecentes. Inclusive eu acho que por diversos motivos, não só ideológicos como práticos, o Brasil deveria lutar pela reversão dessas políticas também no foro internacional. Mas internamente, a ilegalidade das drogas é disparadamente um dos maiores fatores desestabilizantes das instituições, da segurança pública, e da normalidade civil. Este sim é um dos problemas que está destruindo o nosso pais e a nossa sociedade e se intrometendo em todas as áreas, possivelmente até mais do que alta carga tributária. No meu julgamento, a segurança pública fora de controle desempenha hoje no Brasil papel similar à que a hiperinflação ocupou nos anos pré-Plano Real.

Outra causa com menos apelo dramático mas absolutamente fundamental e com imensas conseqüências prática é agilizar e facilitar a abertura de empresas, assim como diminuir enormemente os encargos financeiros ou de outros tipos incidentes sobre elas. Abrir uma empresa deveria ser algo similar a abrir uma conta num banco. Qualquer um deveria poder fazer sem grandes complicações, e sem aberrações corporativistas na qual você pode ser forçado a listar ou mesmo contratar um administrador e um contador para ter permissão de operar uma banca de jornais. Mas novamente, e é aí que eu acho que está a maior força do texto do Pedro, é preciso ter propostas concretas e objetivas sobre como de fato então deverá ser o sistema, que leis precisam ser mudadas, lutar para efetivamente mudá-las, etc. Falar sobre isso genericamente e no campo das idéias lindas e parar por aí não resolve. Especialmente para quem está articulando partidos políticos, é preciso ter propostas explícitas e reais para defender.

E se formos falar realmente sério em termos libertários, precisamos em algum momento falar da questão da educação pública. Ela absolutamente, ostensivamente, exageradamente não pode ser administrada sob o império sufocante do MEC nos moldes em que é feito atualmente. O governo tinha que ter muito, mas MUITO menos influência e poder oficial sobre currículos obrigatórios, calendário escolar, livros texto e mais um monte de outros assuntos. Mas essas são causas extremamente complexas e que dificilmente se conseguirá algo revolucionário a curto ou médio prazo. Isso não quer dizer que não seja importante listar propostas *concretas* sobre o que eventualmente se pretende atingir nessa direção, tanto para saber onde estamos indo quanto para estabelecer uma identidade. E não quer dizer também que não se possa dar pequenos passos não tão revolucionários, como propor algum tipo de forma de certificaçao alternativa de que você está conseguindo como cidadão independente garantir que seus filhos estão atendendo aos ditamos da ementa mequiana para aqueles que não quiserem se submeter ao sistema mequiano de ensino.

Existem também muitas outras causas que fazem sentido num programa libertário, como o fim do voto obrigatório, mas que assim como a questão do alistamento militar, não constituem realmente um grande problema na prática, nem causarão nenhuma grande revolução social se adotadas. Então em princípio deveriam até estar na agenda, mas gastar excesso de esforço com elas seria mais uma escolha ideológica de sabedoria duvidosa

Seja como for, minha impressão é que continua inexistindo, vinda dos libertários mesmos, tanto uma base estratégica coerente e uma identidade forte quanto uma agenda de propostas políticas objetivas e relevantes pelas quais valha a pena concretamente lutar para avançar a causa libertária no Brasil.

For All Good Things Must Come To An End

Wednesday, February 17th, 2010

Quem visitou hoje oindividuo.com talvez tenha sido tomado de surpresa. Eu já estava ciente, conversara com o Pedro sobre o assunto, e já fazia algum tempo que ele expressava insatisfação com diversos aspectos de “O Indivíduo”, desde o início pessoalmente traumático, passando por uma mitologia criada em torno do tema com a qual ele não se identifica nem quer ser compelido a encarnar, até uma evolução de idéias sobre o que significa e o que se pretende afirmar no final das contas com esse tal Indivíduo com artigo definido singular. Aliás, uma parte da mudança tem precisamente o propósito de deixar de vez para trás certas posicões. Mas evidentemente a melhor referência para explicar suas razões é o próprio Pedro.

Enfim, assim sendo, após uma longa história, salvo alguma grande reviravolta, parece justo dizer que pelo menos no momento O Indivíduo, como empreendimento colaborativo, cessou para efeitos práticos de existir, tendo sobrevivido através de diversas encarnações por 13 anos, de 1997 a 2010. Não posso deixar de pensar sobre um trecho do editorial no arqueológico Número Zero que anuncia :

“…nós queremos nos dirigir ao ser humano sozinho, de um para um. Porque é assim que as coisas são. Individuais.”

O que está ironicamente coerente com este eventual destino. O que não quer dizer que eu não apreciasse, e muito, a reunião de idéias divergentes no mesmo local. A tensão cognitiva resultante me parecia ser bem mais fértil do que conflituosa, e estimulava o exame das mesmas questões desde diferentes pontos de vista. E eu, pessoalmente, continuo essencialmente acreditando em certas idéias com as quais o Pedro de alguma forma não mais se identifica, e que me fazem ainda acreditar na propriedade do nome e do conceito por trás de uma franquia nomeada “O Indivíduo”. Tivesse eu mais tempo para escrever e divulgar certas idéias, mais entusiasticamente e cotidianamente o faria. Então aqui permaneço eu, pelo menos por agora, individualmente. E vejamos o que virá daqui pra diante.

Esta encarnação de O Indivíduo acabou. Atualizem seus feeds e bookmarks.

Wednesday, February 17th, 2010

(Originalmente publicado em oindividuo.com em 17 de fevereiro de 2010 por Pedro Sette Câmara.)

Para ler os textos de Sergio de Biasi, visite www.oindividuo.org; feed: http://www.oindividuo.org/feed/.

Para ler os textos de Pedro Sette-Câmara, visite www.pedrosette.com; feed: http://feeds.feedburner.com/pedrosette.

Tinha pensado em simplesmente deixar um post com o endereço do meu blog e com o do Sergio, mas julguei que receberia muitos e-mails com perguntas; portanto, segue uma resposta oficial.

Hoje penso que não deveria ter ressuscitado O Indivíduo em 2004, após alguns meses sem atualizações. Eu mesmo já não me identificava com diversos assuntos e posturas do site antigo, e hoje isso atingiu um ponto insuportável. O mais importante, penso, é que, apesar de continuar crendo no individualismo cognitivo, isto é, que os atos de inteligência se dão na consciência individual, consigo enxergar em diversas atitudes antigas exatamente aquilo que mais venho denunciando: uma reação puramente mimética ao que se percebe como “a coletividade” mascarada de independência e autonomia, algo como “se todos atacam X, defenderei X”. Qualquer verdade pode ser capturada por essa atitude vingativa e ressentida, e, em vez de dar bons frutos, acaba alastrando um ímpeto destrutivo.

Assim, estou republicando uma seleção (ampla) de meus textos a partir de 2004 em meu blog pessoal. Como agora estou no Blogger, como parte do objetivo é desidentificar-me do passado, e como ainda outra parte é não me ocupar do gerenciamento de um hospedeiro, todos os textos do site antigo foram retirados do ar. Caso você tenha publicado algum texto na fase ancestral de O Indivíduo, posso procurá-lo no meu backup — mas de fato apenas fornecerei os textos a seus autores.

Esta página permanecerá no ar por um período indefinido, ao fim do qual o domínio www.oindividuo.com voltará para Sergio de Biasi, que o criou em 1997.

PSC, 17/02/2010

The Night Is Darkening Round Me

Wednesday, February 17th, 2010

THE NIGHT IS DARKENING ROUND ME

The night is darkening round me,
The wild winds coldly blow ;
But a tyrant spell has bound me,
And I cannot, cannot go.

The giant trees are bending
Their bare boughs weighed with snow ;
The storm is fast descending,
And yet I cannot go.

Clouds beyond clouds above me,
Wastes beyond wastes below ;
But nothing drear can move me :
I will not, cannot go.

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Emily Brontë, 1837
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Emily Brönte publicou apenas um único livro, que se tornou um clássico da literatura. No ano seguinte, porém, morreu aos 30, de um resfriado que degenerou em turberculose contraído por atender, em frio intenso, ao funeral de seu irmão. (Bem) antes disso, porém, escreveu o poema acima, que é um dos meus favoritos, e que provavelmente resume muito sobre a minha personalidade.

A corrrente instância de eu pensar de forma mais literal nesse poema começou porém com chegar em casa e encontrar este cartaz aqui pregado na porta do prédio :

Eu leio o cartaz, olho em volta, e apesar de frio, está tudo ainda normal. As pessoas andando pela rua, os carros circulando, nada de extraordinário acontecendo. E ao mesmo tempo, ali está o cartaz, anunciando que é só uma questão de tempo. Entro em casa e começo a receber emails. Um da administração da universidade anunciando o cancelamento de aulas nos próximos dois dias. Outros mudando prazos e cancelando eventos. Eu olho pela janela, e está tudo igual. Mas ao mesmo tempo nada está igual. It’s the quiet before the storm :

Idiom: Quiet before the Storm
When you know that something is about to go horribly wrong, but hasn’t just yet, then you are in the quiet before the storm.

Fui trabalhar no computador, e nada. Fui dormir, e nada. É surreal essa sensação. De que nada está diferente, e ao mesmo tempo tudo está diferente. Eu ainda estou aqui, tudo que me é familiar está aqui, e no entanto eu sei que existe algo prestes a acontecer, que existe uma contagem regressiva contando, e que em algum momento no futuro eu vou abrir a janela e nada mais será o mesmo.

Então no meio da madrugada, como posso descrever? O céu congelou e caiu na minha cabeça. Eu tentei tirar fotos, mas instantaneamente ficou óbvio que abrir a janela era, coloquemos assim, uma péssima idéia, como eu descobri no intervalo de 30 segundos entre eu ter a genial idéia de tirar fotos e fechar correndo a janela. Tirei fotos então no dia seguinte, quando estava “só” nevando e em condicões atmosféricas um pouco mais civilizadas e compatíveis com abrir a janela. Mesmo assim o buraco na parede onde se situa a minha janela estava completamente bloqueado pelo gelo, que eu tive que remover para poder ver qualquer coisa para começar.

É engraçado como são essas coisas, eu fui comentar sobre o assunto com um sujeito com quem estou trabalhando este semestre na universidade e ele começou a rir. Ele disse que isso não é nada. Ocorre que ele vem da Sibéria, e aparentemente por lá isso aí é brincadeira de criança. Segundo ele por lá existem casos em que para sair de casa você tem que cavar um túnel pois você abre a porta e dá de cara com uma parede de neve. E eu achando grandes coisas ter tido que literalmente desenterrar meu carro com uma pá para poder sair com ele.

The quiet before (or rather at the beginning of) the storm

Mais Pássaros Na Neve

Friday, February 12th, 2010

Está certo, reconheço que estes pássaros são mais feios que os anteriores, mas mesmo assim – é meio surpreendente para mim a variedade de pássaros que simplesmente aparecem andando pelos estacionamentos, pelas praças, em todo lugar onde haja um mínimo de espaço aberto. Essa foto aí é no meio do campus da universidade, entre os prédios.

Enfim, Continuo não tendo a menor idéia do nome ou tipo de nenhum deles. :-)

Pássaros Na Neve

Thursday, January 14th, 2010

Alguém sabe que pássaros são esses?

Aparentemente nem todos os pássaros vão passar o inverno longe. Quero dizer, zoologicamente desinformado que sou, eu entretinha a noção de que os pássaros em geral, dotados de habilidades locomotoras superiores ao mamífero médio, faziam as malas e iam para a Flórida em situações nas quais um pedaço de gelo depositado na calçada lá permanece intacto por semanas.

Porém, aparentemente, não são todos os pássaros que fazem isso (a não ser que estes sejam pássaros canadenses em trânsito por New Jersey). Suponho que seja uma prerrogativa de nossos primos endotérmicos. Mas seu comportamento é muito engraçado no frio. Por algum motivo, especialmente esses aí, ficam completamente parados, especialmente se estiver ventando. Aliás, você já viu um pombo com frio? Eu nunca tinha visto até observar um numa calçada em Nova York todo encolhido numa calçada.

Enfim, em um outro dia que não o da foto acima, eu estava parando meu carro num estacionamento vazio e havia uma grande quantidade desses pássaros aí em cima, só que ao contrário desses aí eles estavam espalhados por uma vasta área a grande distância um dos outros e estaticamente olhando para o infinito. Havia pouco movimento e estava tudo silencioso, a cena era surreal. Quando eu vim com o carro, eles não se mexeram, então eu parei. Então repentinamente todos eles voaram… e pousaram junto do meu carro. Foi bizarro, parecia uma cena de “Os Pássaros“. Eu não entendi nada. Depois fiquei pensando e cogitei que possivelmente junto ao meu carro estava mais quentinho. Nem sei se isso faz sentido, mas não consegui imaginar nada melhor.

Citando Aristóteles

Monday, January 11th, 2010

Se é pra citar Aristóteles então
citemos logo esse sujeito aí em cima :
Só sei que nada sei.”

Eu gostaria de propor aqui uma lei empírica sobre debates filosóficos labirínticos : a qualidade da argumentação de um cidadão é inversamente proporcional à quantidade de vezes em que o sujeito cita Aristóteles.

Agora note o leitor, nada tenho eu diretamente contra Aristóteles. Ele era um gênio e coisa e tal. Enxergou muito à frente de seu tempo, como Kepler, ou Copérnico, ou Galileu, ou Newton. Aliás, mesmo quando estava citando ou desenvolvendo pensamentos originais de seus predecessores (aliás exatamente como Kepler, ou Copérnico, ou Galileu, ou Newton) ele provavelmente viu mais à frente do seu tempo do que todos esses aí somados.

Porém, para começar, permanece o fato de que muito, muito, muito ocorreu depois de Aristóteles. É absolutamente ridículo falar por exemplo de lógica modernamente num nível mais do que introdutório referindo-se apenas a Aristóteles, assim como é ridículo falar de física modernamente num nível mais do que introdutório referindo-se apenas a Newton. E em assuntos como física e biologia, embora Aristóteles tenha sido um pioneiro que lançou antes e acima de tudo projetos revolucionários sobre como pensar ciência, quase tudo que ele falou está hoje em dia completamente obsoleto e tem interesse meramente histórico.


Also sprach Aristóteles

Mas esse não é o maior problema em citar Aristóteles. O maior problema não é o contexto, e sim a forma como ele é freqüentemente citado, que é com o seguinte subtexto : “Veja bem, Aristóteles dizia isso, então deve ser verdade.”

Esse é um recurso absolutamente tolo à autoridade e não cabe num argumento sério. Não é problema mencionar que Aristóteles dizia algo, mas apresentar isso como argumento mais do que circunstancial (do tipo “olhe só, vale a pena pensar sobre isso”) para tentar estabelecer que algo seja verdade significa sair do reino da ciência, da lógica e da razão e entrar no reino do obscurantismo dogmófilo. Se algo é verdade, é verdade independentemente de Aristóteles ter percebido, e deve ser estabelecido por argumentos que se refiram à realidade, não com base em ele tê-lo enunciado. Afinal, Aristóteles também falava bobagens, como todos nós.

No entanto, isso parece escapar aos citantes em grande parte das vezes em que Aristóteles é mencionado. Ele parece ser um magneto para esse tipo de menção acrítica. Não que Einstein, Darwin e Newton não tenham também revolucionado as ciências e suas idéias servido de fundamento para grande parte do pensamento moderno. Mas parece mais amplamente percebido no caso destes últimos que suas idéias têm mérito não por serem oraculares ou misticamente inspiradas (mesmo que o tenham sido) e sim por corresponderem de alguma forma à realidade de como o universo de fato funciona. Eles não foram profetas e sim cientistas e pensadores. Assim como Aristóteles, e ele provavelmente seria o primeiro a concordar. A verdade, para ser digna deste nome, permanece verdade mesmo quando ninguém a enxerga, e não se torna ou deixa de sê-lo como efeito colateral de quantas ou quão ilustres são as pessoas que foram capazes de fazê-lo.

Liberdades Teóricas

Monday, January 11th, 2010

Um dos comentários feitos ao meu texto sobre cripto-totalitarismo foi este aqui.

Ao ler a história relatada no link, eu me lembrei mais uma vez de como uma das lições mais vívidas que tirei do episódio original da distribuição do número zero de “O Individuo”  em 1997 foi precisamente uma grande, grande surpresa sobre como eu estava enganado acerca de quanta liberdade de expressão era concretamente reconhecida e aceita como prerrogativa legítima e inalienável por uma instituição como a PUC-Rio. Esse tipo de surpresa se repete em escalas maiores e menores em todo tipo de contexto, e por vezes nos pega completamente desprevenidos, especialmente quando o discurso vigente é nominalmente de liberdade de idéias.

Só que mesmo quando não existe um órgão ou uma política oficial com o objetivo de censurar o pensamento, é absolutamente impressionante como a liberdade de expressão é pouquíssimo respeitada na maior parte das circunstâncias reais, ironicamente e tristemente em particular nas instituições acadêmicas, as quais ao invés de cumprirem a função de auxiliar e incentivar as pessoas a acordarem para a existência de possibilidades divergentes quase sempre buscam histericamente impedir as pessoas de fazê-lo. A maioria das pessoas cultiva a ilusão de que essa liberdade seja muito maior do que realmente é porque raramente toma o palanque para dizer publicamente qualquer coisa remotamente discordante do que é considerado ideologicamente aceitável. O sentimento mais ou menos geral é de que dispõem dessa prerrogativa em príncípio.

Essa fantasia tende a se esfacelar fragorosamente no momento em que se tenta de fato exercer esse tipo de liberdade, porém. As “autoridades” de plantão repentinamente se revelam muito pouco hesitantes em fisicamente confiscar, censurar, proibir, destruir ou de outras formas impedir a distribuição e divulgação de quaisquer materiais que questionem as posições ideológicas “corretas”, mesmo quando tal distribuição e divulgação é realizada de forma absolutamente pacífica e atendo-se ao nível das idéias e do debate. Cria-se então uma situação surreal na qual a liberdade de pensamento existe “em teoria” e como parte do discurso social, mas na hora da verdade com freqüência se verifica que isso só vale para o que não ofende nem incomoda ninguém. Afinal, quem insiste em falar o que obviamente ofende e incomoda só pode estar de má fé e não vamos tolerar isso, certo?

Ora, liberdade apenas para concordar é evidentemente um oxímoro, e o conceito de liberdade de pensamento e expressão adquire sua relevância precisamente quando aplicado a idéias consideradas revoltantes, erradas, heréticas ou ofensivas. Ele se aplica por excelência exatamente àquilo que preferíamos que não fosse dito. E para quem questiona seu valor, uma folheada nos livros de história revela abundantes exemplos do que acontece quando se começa a caminhar na direção de aceitar que se proíbam as pessoas de pensarem e se expressarem de forma divergente ou estranha à ortodoxia.