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Homens e Sexo

Sunday, July 25th, 2010

Mulheres do mundo, vou lhes prestar um grande favor e colocar aqui alguns fatos sobre homens que qualquer homem médio com um mínimo de experiência, introspecção e sinceridade está abundantemente cansado de conhecer mas que a mulher média absolutamente desconhece.

Homens do mundo, vou lhes prestar um grande favor ao dizer explicitamente as coisas que vocês queriam que suas parceiras soubessem mas que por um monte de motivos elas não estão dispostas a ouvir, não é socialmente aceitável dizer, ou que não é dito porque coloca a nós homens numa posição da extrema vulnerabilidade.

Esposas, namoradas, parceiras, ouçam : existe uma grande probabilidade de que você não tenha a mais remota idéia de quão importante sexo é para um homem, ou mais especificamente, para o homem que você ama.

Note, não é que as mulheres em geral não percebam que existe alguma coisa acontecendo com homens e sexo. Elas percebem que os homens falam sobre sexo, e buscam sexo, e as procuram para ter sexo, e etc. Mas elas vezes demais não conseguem entender exatamente o que está acontecendo, e saltam para todo tipo de conclusão equivocada, com conseqüências extremamente negativas para a felicidade geral de ambos os gêneros.

Comecemos com um exercício de desconstruir certos preconceitos. Vou iniciar com alguns fatos concretos. Os homens em geral, muitissíssimo mais do que as mulheres, estupram, consomem pornografia, pagam por sexo, e estão genericamente propensos a todo tipo de comportamento desonesto, ilegal, destrutivo, insensato, absurdo e bizarro para obter de alguma forma acesso a sexo ou mesmo a simulacros de sexo. A questão é : por quê?

Não tendo que andar por aí com seu sangue inundado de testosterona 24 horas por dia, uma grande parte das mulheres tende a concluir que é porque os homens sejam brutos insensíveis, estúpidos egoístas, que por um capricho fútil estão dispostos e felizes em usar os outros sem qualquer consideracão por seus sentimentos, em particular suas mulheres. Bem, evidentemente que existem tais pessoas que não se importam com suas parceiras, mas isso não é privilégio do gênero masculino, e sim decorrente do fato de que uma boa parte (talvez a esmagadora maioria das pessoas) é horrivel mesmo. O mesmo tipo de fenômeno ocorre do lado feminino.

Mas façamos aqui um exercício que acredito que será muito elucidativo. Você, mulher que não entende o comportamento dos homens com relação a sexo, e se sente tentada a concluir que seu homem não se importa, que é um grosseirão que quer apenas objetificá-la, faça o seguinte esforço de imaginação. Tome o comportamento que você observa nos homens – ou no seu homem – e ao invés de concluir que se ele está fazendo tais e quais coisas então ele não tem caráter, pense ao contrário. Você, mulher bem intencionada que se importa sinceramente com o bem estar do seu parceiro que em outros aspectos parece ter grandes qualidades mas não consegue entender o comportamento dele com relação a sexo, parta do princípio de que ele se importa com você tanto quanto você se importa com ele (claro, supondo que você tenha fortes motivos e evidências em outras áreas da vida para concluir que escolheu um parceiro que de fato se importe com você), e tente então se colocar na posição dele. Pense o seguinte : o que *eu* teria que estar passando para apresentar esse tipo de comportamento? Qual o nível de desespero e frustração eu teria que atingir antes de começar a agir dessa forma?

A verdade constrangedora e que coloca os homens extremamente vulneráveis é que os homens precisam desesperadamente de suas mulheres, e sexo é uma parte absolutamente fundamental disso. Um homem médio pode receber de sua companheira um monte de demonstrações de companheirismo e carinho e afeto mas a não ser que esteja patologicamente estressado, deprimido ou bravo – e grande parte das vezes mesmo assim – ele não se sentirá amado (pelo contrário, sentir-se-á rejeitado e alienado, não interessa quantas explicações ouvir) se não receber sexo.

Mas é mais do que isso. Mais do que não se sentir amado, com as naturais conseqüências psicológicas e afetivas, o homem médio se tornará progressivamente ressentido, amargo, desmotivado e destrutivo. Os homens precisam metabolicamente, biologicamente, quimicamente de sexo – pense num nível de um viciado em heroína. Na verdade pior, porque a síndrome de abstinência não passa e vai embora após alguns dias / semanas – ela simplesmente permanece lá, opressivamente, onipresente, constante, insufocável. Tente trabalhar, se relacionar, descansar, viver uma vida produtiva com uma britadeira ligada 24 horas por dia no volume 11 sacudindo seu corpo e sua mente com a urgência de um afogamento dizendo “você precisa ter acesso sexual à sua parceira”. Entenda que esse é o estado biológico normal de grande partes dos homens e entenderá muito sobre os homens – e sobre o seu parceiro que você ama.

Claro, como sempre, indivíduos variam e a média não dita casos particulares. E além disso, a história prévia faz muita diferença – alguém que nunca fez sexo, ou nunca fez sexo satisfatório, dentro de uma relação afetiva estável, não tem com o que comparar, e avaliar corretamente de onde vem toda essa angústia. E uma parcela dos homens, seja por falta de introspecção, mas provavelmente muito mais por uma questão de se preservar, não está disposto a admitir claramente e abertamente com todas as palavras quão séria é essa questão em suas vidas. Mas a verdade é que o homem médio começa a ficar frustrado e incomodado após algo da ordem de 24 horas sem ter acesso sexual à sua parceira. E progressivamente isso cresce em direção ao desespero.

E quando eu digo desespero, é desespero mesmo. É como se as mulheres tivessem a chave da geladeira e os homens só pudessem se alimentar quando elas decidissem permitir. Inclusive eu diria que para a maior parte dos homens gera um grau de desespero e frustração bem maior não ter acesso a sexo do que não ter acesso a comida. Por favor, mulheres do mundo, prestem atenção ao que estou dizendo, e entenderão muito do comportamento masculino, e terão mais compaixão quando um homem tentar explicar que precisa ter sexo com você ou vai ficar louco. A metáfora com estar lhes negando alimento é bastante realista.

Claro, uma mulher pode ter dificuldade de entender como isso possa ser tão intenso e paralisante, e argumentar por exemplo que não ter acesso a sexo não causa a morte, como não ter acesso a comida eventualmente causa. Mas a isso eu respondo : lembre-se de que as nossas necessidades biológicas não se expressam como decisões racionais a nível cognitivo e sim como imperativos psicológicos no nível mais basal a instintivo. Você não decide comer da mesma forma que decide encher o tanque do seu carro, pensando calmamente “Oh, meus níveis de glicose estão baixando, provavelmente está na hora de injetar uns carboidratos no meu sistema.” Não, você *precisa* comer, inicialmente como um leve desejo, então como uma vontade crescente, e finalmente desesperadamente, ansiosamente, avidamente. Se alimentação, ou sono, ou água, ou ar lhe for negado por tempo suficiente, o resultado será o mais completo desespero, no qual todas as outras prioridades serão jogadas às favas até que essa necessidade biológica seja atendida. Isso não é um mecanismo racional que ocorra baseado em considerações lógicas. Se fosse, todos conseguiriam fazer dieta sem problemas. Não é assim que funciona.

Eu estou aqui então relatando algo que é verdade para uma grande fração dos homens com relação a sexo, certamente para o homem médio. Não acredite se seu homem tentar negar este fato por uma questão de dignidade, auto-preservação, pressão social ou porque você não consegue entender ou aceitar que seja assim. Nós homens somos reféns de uma quantidade enorme de testosterona sendo continuamente despejada em nosso sangue. Somos reféns disso e temos que lidar diariamente com isso de algum jeito. Escolher o que fazer diante disso vai depender do caráter e da capacidade para auto-controle de cada um, mas o sentimento visceral e opressivo ao qual o homem médio está sujeito é de que sexo não é opcional. Não tem sequer que ser bom ou agradável, tem que ser feito. Assim como alimentação – em desespero, você catará restos de um sanduíche semi-apodrecido de uma lata de lixo na rua. Não que você queira viver assim; você buscará construir uma vida na qual isso nunca ocorra. Mas é o que grande parte, em desespero, fará se for absolutamente necessário.

Agora, você, mulher que lê este texto, certamente já viu em algum momento um mendigo sem teto catando sanduíches semi-aprodrecidos de latas de lixo no meio da rua. Imagine, quão desesperada você teria que estar para fazer isso? Quanta fome você teria que estar sentindo para sentir alívio e paz ao ingerir um sanduíche semi-comido que você tirou de uma lata de lixo no meio da rua?

Grande parte das mulheres parece acreditar – possivelmente baseadas em como elas próprias vivem sua sexualidade – que a busca constante de sexo por parte dos homens através de todos os meios e artifícios possíveis seria um sinal de futilidade e de busca narcisista de auto-gratificação. Que quando um homem contrata uma prostituta ele estaria pensando “Hehe, eu sou gostosão mesmo, quero pegar todas.” Mas com muito maior probabilidade, o homem médio nessa situação está sendo motivado pelo mais completo desespero, solidão, medo e angústia. Claro, existem exceções, como em tudo. Mas o homem médio nessa situação, independentemente de qualquer imagem estereotipada de garanhão ou pegador que mitologicamente se tenha construído sobre o assunto, é muito mais provavelmente alguém em total desespero. É o mendigo tirando sanduíches da lata de lixo. Claro que é extremamente vexaminoso e deprimente se assumir nessa posição tão vulnerável, então os homens mesmos em geral deixam seguir – e até incentivam – esse mito como forma de preservar um pouco de sua dignidade. Mas na maior parte das vezes a realidade é muito menos glamourosa.

Então pense e reflita, você, mulher que lê este texto : quão desesperada você teria que estar para pagar uma pessoa desconhecida para tocar em você e demonstrar que te aceita e que te recebe como mulher? Quão absurdamente desesperada você teria que estar para gastar dinheiro que você não tem, arriscando sua saúde, sua reputação, seu bem-estar, sua dignidade, em alguns casos sua liberdade e sua vida, para fazê-lo? Quão desesperada você teria que estar para retirar um sanduíche semi-apodrecido do lixo e comê-lo e ainda se sentir aliviada com isso? Para roubar um pão do mercado quando ninguém estivesse olhando?

Mulheres do mundo : por favor não coloquem seus homens nessa condição de desespero. Vocês não têm tanta testosterona quanto nós sendo continuamente despejada no seu sangue e em geral não conseguem sequer começam a compreender por que os homens agem como agem com relação a sexo. Eu estou tentando explicar. Por favor ouçam, e se vocês sinceramente se importam com algum homem em particular, saibam que isso provavelmente é verdade sobre ele também, mesmo que ele nunca tenha articulado, ou mesmo que ele veementemente negue (porque é de fato algo muito complicado de admitir).

Note, não é que seu parceiro não te ame, ou que ele te enxergue apenas como um dispositivo para aliviar suas tensões sexuais. Um homem com o qual valha a pena estar sente sim uma quantidade enorme de afeto e carinho e amor por você, essencialmente como você sente por ele. Mas as necessidades psicológicas e afetivas dele não são necessariamente atendidas da mesma forma que as suas. Assim como você precisa que ele te ouça, e que ele atenda a certos imperativos psicológicos e afetivos muito profundos da sua parte mesmo quando ele estiver cansado, estressado, preocupado ou ocupado, ele precisa de compromisso similar da sua parte. Um homem ao qual sexo é racionado por sua parceira ficará insatisfeito, amargo, e infeliz. Imagine estar continuamente numa posição na qual você não sabe de onde ou quando virá a sua próxima refeição.

Claro, evidentemente você também tem suas próprias questões com relação a sexo, mas compreenda o quão crucialmente importante é que você encontre uma forma de acomodar as dele sem se violentar, e tente compreender quão profundas e intensas provavelmente são as dele, quase com certeza bem mais do que você jamais imaginou ou ele conseguiu te explicar.

Uma certa categoria de mulher talvez se sinta tentada a dizer cinicamente “não é problema meu, lide com isso”. Mas na maioria dos casos nós não temos como “lidar com isso” sem a ajuda de uma mulher. Responder isso a um homem é como responder a uma mulher que diz “eu preciso que você atenda à minha necessidade de ser ouvida” que “não é problema meu, lide com isso”. Não é uma resposta apropriada dentro de uma relação afetiva sólida baseada em respeito, carinho e consideração mútua pela felicidade do outro.

Os homens do mundo com os quais vale a pena estar não estão buscando uma escrava sexual, um eletrodoméstico com um buraco aquecido, não estão querendo receber carinho e afeto e amor sem dar nada em troca. Muito pelo contrário. Eles reconhecerão o seu comprometimento, e motivados por amor, gratidão e carinho farão tudo ao seu alcance para retribuir à altura e prestar atenção a que as suas necessidades também estejam sempre satisfeitas. Mas eles de fato precisam intensamente, de forma muito mais profunda e visceral do que você espontaneamente compreenderia, que você esteja sexualmente receptiva. Tente sinceramente entender isso. Não significa que ele não se importe com você. Muito pelo contrário, qualquer homem com quem valha a pena estar tentará entender também o seu lado, e através de diálogo chegar a uma forma de fazer as coisas que possa funcionar para ambos. E estará não só disposto como determinado a fazer a parte dele quando se tratar de satisfazer as suas outras necessidades afetivas e psicológicas. Mas você precisa compreender o quão fundamental é essa questão de sexo para o homem médio. O quão importante isto é para a sanidade mental dele, para a saúde da relação, para a capacidade dele de ser um ser humano equilibrado e funcional e um bom companheiro.

Antes de mais nada, não assuma que sexo para ele signifique a mesma coisa que significa para você. Se você diz para seu parceiro “Eu te amo e está tudo bem mas eu não estou afim de fazer sexo com você hoje.”, o que ele vai ouvir é : “Eu não te amo mais. Eu não sinto mais atração por você. Eu não gosto mais de você. Eu não sou mais sua mulher.” Um homem razoável conseguirá compreender situações desviantes e exceções, mas isso ocorrer regularmente será inevitavelmente compreendido dessa forma. Esse é um ponto extremamente complexo de explicar ou fazer entender.

Talvez uma comparação ajude. Suponha que seu marido chegue em casa e você esteja cheia de saudade dele e você corra para ele e o abrace esperando naturalmente que ele a abrace de volta. Suponha então que a resposta dele seja ficar ali em pé parado sem esboçar qualquer reação senão um vago ar de desconforto e impaciência. Então você tente beijá-lo e ele vire o rosto. Aí você pergunte “Puxa, o que está havendo?” e ele responda “Nada, está tudo ótimo, eu te amo e sou apaixonado por você, mas neste momento não estou afim de que você encoste em mim.” E suponha que isso ocorresse com considerável freqüência, digamos mais da metade das vezes em que você o procurasse. Você pensaria que está tudo bem, ótimo? Isso seria administrável?

Ou, para fazer uma outra comparação, que talvez fale ainda mais profundamente às mulheres. Suponhamos que seu parceiro chegasse em casa e você estivesse cheia de saudade dele. Então você falasse “Oi querido, que bom que você chegou!” e ele não falasse nada ou falasse “Hm.” e então andasse até você, te virasse de costas, puxasse sua calça para baixo e fizesse sexo com você ali mesmo sem qualquer carinho e sem dizer nada, terminasse, fechasse o zíper, e então fosse para o computador trabalhar te deixando em pé ali no meio da sala. Aí quando você se aproximasse dele para conversar ele dissesse “Que saco, já te disse que não é sempre que estou afim de conversar, só às vezes, me deixa em paz”.

Se essa última história soa simultaneamente realista (embora caricatural) e extremamente frustrante, pense que é *precisamente* assim que os homens se sentem quando após buscarem atender às legítimas necessidades de afeto, carinho e atenção de suas mulheres são então rejeitados sexualmente. As necessidades dos dois parceiros em uma relação de casal não são necessariamente as mesmas, ou sincronizadas. Ambos têm que estar dispostos a fazer compromissos e a não fazerem exatamente o que querem na hora em que querem. Claro, é preciso escolher um parceiro cujas necessidades você tenha condição de satisfazer sem se violentar, e que tenha condições de satisfazer às suas necessidades sem se violentar. Mas muitas vezes um dos dois estará ouvindo o outro, e prestando atenção no outro, e cuidando do outro não porque essa seja a atividade mais divertida do mundo naquele momento, e sim motivado por amor e carinho e comprometimento com a relacão. Se isso for constantemente um sacrifício insuportável, então é claro que não é viável. Mas é infantil e irreal esperar que porque você é apaixonado por alguém automaticamente suas necessidades estarão sempre perfeitamente sincronizadas. É preciso haver a maturidade de ambos saírem do seu caminho para atenderem às necessidades do outro, e cuidarem um do outro. Muitas e muitas vezes estará em suas mãos o poder de fazer seu parceiro ou parceira imensamente feliz e dar a ele eu ela algo que ninguém mais no mundo poderia dar com apenas um moderado e administrável grau de flexibilidade da sua parte. E se ele fizer o mesmo por você, ambos têm muito a ganhar, e na soma estarão muitíssimo mais felizes do que se fossem se fechar em si mesmos e em “eu só faço o que eu quero”. Mas para isso ser possível, é preciso haver comprometimento genuíno de ambas as partes, é preciso haver uma determinação sincera de entender e satisfazer as legítimas necessidades um do outro sem joguinhos e manipulações. Não dá pra construir uma relação na qual os parceiros estejam ambos felizes, satisfeitos e realizados insistindo na atitude “seus problemas não são da minha conta, não são minha responsabilidade, não enche”.

Claro, para muitas pessoas, possivelmente a maioria, tanto homens quanto mulheres, isso não é sequer uma questão. Tais pessoas estarão perfeitamente felizes em ter uma relação medíocre na qual consigam capturar alguém para se submeter a satisfazer a maior quantidade possivel das suas necessidades enquanto dão o mínimo possível em troca. Isso vai do caráter de cada um. Mas para quem não é assim e mira em algo diferente, em particular para as mulheres que querem verdadeiramente uma relação de encontro e amizade e comprometimento mútuo e recíproco com a felicidade alheia, prestem atenção no que estou dizendo. Mulheres bem intencionadas do mundo, não usem sexo como forma de tentar manipular ou controlar seus parceiros. Isso é cruel e perverso e gerará uma quantidade infinita de ressentimento. Não usem sexo como uma forma de puni-los, ou de expressar sua frustração. E não submetam seus parceiros ao sofrimento, solidão e angústia de ouvirem “Não enche, só vamos fazer sexo quando *eu* estiver afim”. Os homens não têm a mesma relacão com sexo que vocês têm. Sexo não significa para os homens o que você mais espontaneamente estaria inclinada a achar que significa, especialmente não se você estiver baseado sua avaliação na sua própria relação com sexo. Da mesma forma, simetricamente, homens bem intencionados do mundo : não submetam suas parceiras ao sofrimento, solidão e angústia de não ouvi-las quando elas precisarem de sua atenção, de ouvirem “Não enche, estou ocupado, só vamos conversar sobre suas histórias, preocupações, planos, sonhos e problemas quando *eu* estiver afim, enquanto isso me deixa em paz.”

Mulheres bem intencionadas do mundo, se você tem um parceiro que por sólidos motivos você acredita que se importe com você mas que tem um comportamento com relação a sexo que você não entende, não caia no equívoco de achar ou de acusá-lo por isso de que “você está interessado apenas no meu corpo”. Esse tipo de “acusação”, além de usualmente ser equivocada no caso de você ter escolhido um parceiro decente que você admira (um homem com quem valha a pena estar jamais estaria com você numa relação séria se não apreciasse a sua personalidade e quem você é), parece implicitamente colocar a questão de que haveria algo de errado ou incorreto em o homem estar sim interessado no seu corpo. É claro que ele está. Isso é normal, saudável, esperado e uma parte integral e fundadora da relação. Sim, seu parceiro espera que você faça sexo com ele, e regularmente, não como um favor, uma exceção ou uma recompensa, da mesma forma que você espera que ele a ouça, e satisfaça outras legitimas e saudáveis necessidades emocionais e afetivas suas, e não apenas quando ele quiser alguma coisa, ou como migalha para você não ir embora. Se ele se furtar a fazê-lo, estará errando muito, e deixando você profundamente infeliz e frustrada. Mas o mesmo vale para o seu lado da relação. Ambos os lados precisam buscar compreender as necessidades insatisfeitas um do outro e buscar sinceramente aprender a satisfazê-las. Ambos os lados! E as necessidades do seu parceiro ou parceira não são necessariamente as que você esperava ou exatamente as mesmas que as suas. Não deixe de acolhê-las por causa disso, e não se furte a buscar satisfazê-las porque elas não fazem sentido para você. Homens e mulheres são biologicamente, quimicamente, metabolicamente diferentes, mas cada um tem em si as ferramentas para fazer o outro mais feliz do que jamais poderemos compreender. Então ouçamos nosso parceiro e abramos ambos mutuamente acesso aos recursos que nós temos inatamente para fazê-lo muito, muito feliz.

Morte por Solidão

Tuesday, June 15th, 2010

A teoria mais conhecida sobre a queda do mítico, gigantesco, santo e sagrado Império Romano é a de que ele teria sido ao longo de séculos primeiro desestruturado e então literalmente, concretamente, fisicamente destruído por invasões militares bárbaras. Este é um desses factóides enciclopélicos freqüentemente “ensinados” em escolas.

Uma teoria um pouco menos conhecida é a de que não teria sido bem isso que aconteceu. Existem fartos e grandes indícios de que 1) a maior parte dos bárbaros não tinha qualquer interesse em destruir o Império Romano e 2) a desintegração do modo “romano” de viver não está perfeitamente sincronizada com a desintegração do império. Elaboremos.

O fato é que o Império Romano exercia *imenso* fascínio sobre os bárbaros, que em geral queriam tão somente *permissão* para migrar pacificamente para dentro das fronteiras do império em busca, por assim dizer, de uma vida melhor. Queriam aprender a língua (e em grande parte o fizeram, tanto quanto foi possível), queriam adotar as religiões, as instituições, o modo de ser romano. Quem de fato não queria isso eram os cidadãos romanos, que achavam os bárbaros, com seus modos selvagens e aparência pouco “sofisticada”, indignos de ingressar no império. Quer dizer, indignos *exceto* para executar tarefas que os romanos mesmos não queriam mais executar, via pela qual – por exemplo como soldados mercenários – hordas inteiras de bárbaros foram eventualmente assimiladas. Então criou-se uma situação na qual mais e mais bárbaros foram fazendo na prática parte do império romano, até chegar um momento em que simplesmente assumiram o poder de fato. E o que fizeram com isso, resolveram denunciar todos os valores romanos? Não! De forma alguma. Os bárbaros buscaram na maior extensão possível dos seus esforços preservar toda a estrutura política, administrativa e cultural do império, muito depois do último imperador ter sido deposto. Mas não foram bem sucedidos em fazê-lo, e a decadência paulatina de todos esses aspectos se deu irreversivelmente ao longo de grandes períódos de tempo.

Qualquer semelhança com o mundo atual é mera identidade.

Para reforçar o ponto, vamos a uma teoria ainda menos conhecida sobre o que de fato ocorreu. O império romano passou por uma cisão espontânea em dois e o império do oriente durou ainda mais um bom tempo. Qualquer explicação do colapso do império do ocidente tem que levar isso em conta, isto é : o que deu errado no ocidente que fez com que a queda viesse tão antes e fosse tão mais dramática? Bem, uma força que alguns historiadores consideram que se deveria levar em conta é que os árabes, repentinamente inspirados e unidos pela doce mensagem de paz e amor do corão, decidiram partir da Arábia, invadir o Iraque e então conquistar militarmente todo mundo ao seu redor. Ironicamente, em termos de religião e teologia, os árabes eram bem mais tolerantes que os papólicos, e achavam que cristãos e judeus cultuavam uma forma imperfeita de islamismo que mesmo sendo errada tinha valor suficiente para ser respeitável (ao contrário de todo o resto, que tinha mesmo era que se converter ou morrer; e aliás tentar converter alguém do islamismo para o cristianismo por exemplo seguiu sendo crime passível de pena de morte). Então em um dado momento, após conquistarem um dos maiores impérios da historia, resolveram ficar mais calmos e parar com a farra. Mas a essa altura, muito mais de cultura e civilização estava crescentemente sendo preservado no império árabe do que na Europa. Por que? Uma possivel explicação é que a riqueza do império romano em geral e da Europa em particular era enormemente dependente de impostos e de comércio. Ao perder acesso às rotas através do Mediterrâneo e dos territórios agora em mãos dos Árabes, os restos moribundos do império romano no centro da Europa, mesmo não tendo sido completamente subordinados aos árabes, perderam completamente sua viabilidade econômica, enquanto o império do oriente ainda persistiria por séculos. O problema não seria então basicamente militar, ou cultural, mas econômico.

Recapitulemos então as idéias que levantamos até agora sobre a desintegração do império romano.

A) O império romano teria se desintegrado diante de derrotas militares
B) O império romano teria se desintegrado diante de decadência e descaraterização cultural
C) O império romano teria se desintegrado diante de se ter tornado economicamente inviável

Vamos agora à piéce de résistance : as teorias mais modernas sobre o colapso do império romano.

Estudos arqueológicos recentes mostraram um fenômeno estranho ocorrendo ao longo de um grande período de tempo : despopulação espontânea. A cidade de Roma em seu auge pré-medieval chegou a possuir da ordem de um milhão de habitantes. Então progressivamente, o que se observou foi uma queda da população, um descréscimo contínuo. Quinhentos mil, cem mil, etc. Isso não ocorreu somente em Roma; ocorreu em grande escala. Um grande número de construções romanas foram encontradas desertas, desocupadas, sem que isso tenha sido o resultado de algum grande cataclisma ou invasão. Poder-se-ia pensar que isso teria sido o resultado de algum tipo de migração para o campo, mas existem várias evidências de que não seja o caso. Como grupo biológico, os romanos simplesmente pararam de se reproduzir. Um dos motivos por que isso passou despercebido como idéia por tanto tempo ao se pensar sobre o assunto é o quão contraintuitivo soa que uma das civilizações aparentemente mais bem sucedidas do mundo tenha resolvido voluntariamente entrar em apoptose. Então mesmo quando as pistas estavam lá o tempo todo, elas freqüentemente foram interpretadas como conseqüência e não como causa. Mas um acúmulo cada vez maior de fatos leva a crer que a despopulação não seria então uma *conseqüência* da decadência, e sim sua causa. Então não seria o caso de que os bárbaros, ou os árabes, ou os vikings ou ninguém mais  teria destruído a cultura romana de fora para dentro ou expulsado geograficamente os romanos de onde se encontravam. Tais grupos apenas ocuparam o vácuo deixado por uma civilização que desapareceu por crescente falta de gente.

O mais irônico, ou assustador, ou informativo (dependendo do ponto de vista que assumirmos) é que esse é precisamente o fenômeno que observamos *hoje* nas nações mais “desenvolvidas” do mundo. Ao atingirem o auge da “sofisticação”… tornam-se biologicamente estéreis, inférteis, cometem suicídio filogenético. Seus representantes simplesmente param de se reproduzir e o vácuo resultante é entao ocupado por populações nas quais ainda queima a chama primitiva, selvagem e renovadora de “eu quero produzir mais indivíduos da minha espécie”. E sem isso, sem esse fogo biológico primordial, sem essa vontade irracional de se conectar genuinamente a outros seres humanos e com isso produzir novas vidas e cuidar delas ao invés de se preocupar primordialmente apenas com o próprio nariz e com joguinhos estúpidos de apostar a própria sobrevivência e felicidade na impostura de querer se fingir sofisticado demais para ser um primata, sem isso nenhuma civilização do mundo, por mais culturamente avançada, por mais intelectual, tecnologicamente, economicamente pujante que seja, por mais militarmente poderosa que tenha se tornado, pode sobreviver.

O grande, sagrado, santo, mitológico império romano não morreu por falta de poder militar, decadência cultural, ou mesmo colapso econômico. Todos esses fenômenos de fato ocorreram, mas foram conseqüências, não causas. Não, o império romano morreu por falta de gente. O império romano morreu de solidão.

Breve Bibliografia em Filosofia da Ciência

Sunday, May 30th, 2010

Infelizmente quando me mudei para cá deixei quase a totalidade dos meus livros para trás e à época não os tinha no meu computador, então reconstruir uma bibliografia partindo do que eu li e posso recomendar pessoalmente fica mais complexo dado que primeiro preciso me lembrar do que eu li. :-)

Seja como for, periodicamente recebo pedidos de recomendações sobre o que deve ser lido em filosofia da ciência. Bem, embora eu tenha decidido dedicar minha vida profissional à academia, não é com filosofia da ciência que eu gasto a maior parte dos meus esforços, então qualquer lista que eu proponha terá provavelmente grandes e importantes lacunas. Me reconforto um pouco em saber que isso provavelmente é verdade de qualquer lista desse tipo, dada a vastidão do tema. Enfim, essas são algumas das recomendações bibliográficas pessoais minhas sobre o assunto.

Para começar, eu gostaria de apontar que alguns dos grandes cientistas ao longo da história – aqueles que propuseram idéias tão importantes e revolucionárias que alteraram a própria forma de fazer ciência – se viram forçados eles mesmos a considerarem as implicações filosófica e metafísicas do que estavam dizendo, assim como a olharem para o próprio processo científico e questionarem sua natureza e validade. Então tendo eu sempre sido interessado em ciência, antes mesmo de consumir qualquer literatura exclusivamente sobre filosofia da ciência, já havia lido diversas discussões do assunto por acadêmicos hoje reconhecidos por vezes primordialmente por seu trabalho científico e não por suas discussões de filosofia. Entre eles estão notavalmente Galileu Galilei, René Descartes, Isaac Newton, Ernst Mach, Henri Poincaré, Albert Einstein, Bertrand RussellWerner Heisenberg. Digo notavelmente não apenas em termos de sua relevência intrínseca mas também em termos da influência que tiveram sobre minha opinião sobre filosofia da ciência como sendo um assunto importante. Poucos textos li no original da maior parte deles; na maior parte das vezes li *sobre* o que eles pensavem ao invés de diretamente o que escreveram, tanto pela inacessibilidade das fontes primárias quanto pela sua inescrutabilidade quando lidas contemporaneamente. Mas digo já de saída que é um equívoco gigantesco imaginar que os grandes cientistas desconheçam, não considerem, ou não discutam as implicações filosóficas do que estão fazendo assim como o que os autorizaria no final das contas a afirmar o que quer que seja sobre a realidade objetiva. Inclusive, repito, nas obras científicas mais revolucionárias e relevantes, a ciência esbarra diretamente com filosofia, e na expansão das fronteiras mais avançadas da ciência é necessários discutir explicitamente questões filosóficas. Isso fica claríssimo ao examinarmos o que todos os cientistas acima de fato disseram sobre filosofia da ciência. Infelizmente hoje em dia existe – possivelmente domina – o conceito do cientista não como vocação intelectual mas como “somente um emprego”, caso em que o sujeito está em geral muitíssimo pouco preocupado em questionar paragidmas ou revolucionar qualquer coisa e sim, muito pelo contrário, interessado em investir seus esforços nas direções menos controversas que for possível, receber seu salário e ser deixado em paz.

Uma exceção na lista acima quanto a eu ter consumido primordialmente fontes secundárias é no caso de Einstein. Não que eu não tenha lido muito do que se escreveu tanto sobre ele quanto sobre sua obra científica e seu significado (além de quando estudante de engenharia ter sido submetido à versão-para-universitários da teoria da relatividade especial presente em livros texto de física moderna), mas além disso também li diversos textos escritos pelo próprio, como a coletânea The World As I See it (que na verdade não tem muito sobre filosofia da ciência) e Relativity. Este último de fato fala sobre filosofia da ciência, interessantemente não como um tópico em si, mas como uma necessidade para fazer a ciência da qual o livro trata. Uma parte substancial do livro é gasta discutindo conceitos, como justificá-los, e seu significado.

Outra grande exceção na lista acima quanto a eu ter consumido primordialmente fontes secundárias é no caso de Russell. Autor extremamente prolífico, várias de suas obras permanecem não apenas legíveis como relevantes ainda hoje. O primeiro livro que li dele foi Introduction to Mathematical Philosophy, um clássico absoluto que se por um lado hoje em dia está academicamente um pouco datado, por outro lado permanece perfeitamente acessível e retrata um momento de transição de importância fundamental tanto para filósofos quanto para matemáticos – e de forma mais ampla para cientistas em geral. A única contra-indicação que eu talvez possa ter a esse livro é que possivelmente seja difícil gostar dele para quem por algum motivo se convenceu de que odeia matemática.

Até o momento, porém, venho citando os contatos que tive com filosofia da ciência como efeito colateral de estar interessado em ciência. O primeiro contato que tive com pensadores que se dedicaram mais extensamente a abordar filosofia da ciência como um assunto em si mesmo foi através do curso obrigatório de filosofia da ciência que fiz na PUC-Rio. Um parêntesis aqui para que não sabe – a PUC tem como um de seus princípios a idéia de que todos os seus alunos devem ter uma formação não apenas técnica mas também minimamente humanística e moral, e para satisfazer esse requisito o aluno tem que escolher uma certa quantidade de cursos em filosofia, religião e ética para cursar de forma a poder se graduar. Entre esses cursos, eu fiz o de filosofia da ciência, e isso acabou sendo razoavelmente interessante, por vários motivos. Um deles é que eu parecia ser praticamente o único ser humano na sala de aula remotissimamente interessado nos tópicos sendo discutidos, então as aulas viraram por vezes um diálogo entre mim e o professor com a classe presente assistindo. Outro motivo é que por total coincidência revelou-se que o professor morava exatamente no mesmo prédio que eu, e não tinha carro, e ia para a PUC de ônibus, algo que levava da ordem de 40 minutos. Assim sendo, eu passei a dar carona para ele regularmente, e no caminho já íamos falando de filosofia da ciência, com o resultado de que quando a aula começava a turma estava de fato meio que se juntando a um diálogo pré-existente. Finalmente, como mencionei, foi a primeira vez em que de fato fui apresentado de forma minimamente organizada à literatura da filosofia da ciência como um assunto em si mesmo.

O professor adotou como referência recomendada o autor Alan Chalmers, especificamente o livro What Is This Thing Called Science, que eu concordo que é uma boa introdução ao assunto. Um outro livro do Chalmers que pode valer a pena é Science and Its Fabrication.

Bem, só que a partir daí se abre todo um universo do estudo da filosofia da ciência não da parte dos cientistas mesmos e como parte do processo científico, mas sim partindo de filósofos, e como um assunto em si mesmo ao invés de aplicado ao desvendamento de uma determinada questão científica. É completamente impossivel sequer começar a resumir aqui todas as posições e questões envolvidas, mas posso citar alguns dos autores e livros que considero mais essenciais – ou pelo menos que eu pessoalmente acho que vale a pena examinar. Entre eles (forçosamente incompleta esta lista) : Charles Sanders Peirce, Karl Popper, Thomas Kuhn, Paul Feyerabend, Willard Van Orman Quine, Daniel Dennett. Ressalva : nem todos eles têm igual relevância ou importância e essa lista expressa fortes preferências pessoais. Naturalmente que em qualquer lista deste tipo temos que incluir também Platão e Aristóteles, mas isso além de óbvio eu considero como pré-requisito fundamental para qualquer um que queria falar seriamente seja de ciência, seja de filosofia. E como dizer que “ah, e para discutir filosofia você precisa saber ler e escrever”. Isso sendo dito, não é discutindo Platão e Aristóteles que vamos compreender o que ocorre modernamente seja em ciência seja em filosofia da ciência.

Peirce em particular teve uma vida infernal e é na minha opinião um pensador que se não tivesse sido assolado por circunstâncias adversas teria hoje muito mais relevância do que lhe é concedida. Karl Popper é figura obrigatória em qualquer lista, e seu livro The Logic of Scientific Discovery é um clássico. A obra correspondente de Kuhn é The Structure of Scientific Revolutions, e para quem gostar deste, a continuação obrigatória é Feyerabend, com Against Method. Quine figura nesta lista em grande parte por minha simpatia pessoal :-). Ele nunca realmente escreveu um grande clássico sobre filosofia da ciência. Mas isso não quer dizer que não tenha escrito nem tido influência sobre o assunto, e uma possível sugestão seria From a Logical Point of View.

Finalmente, temos Daniel Dennet, um prolífico e ativo filósofo contemporâneo que se ocupa entre outros assunto com filosofia da ciência, e que acrescento a esta lista em parte porque ele de fato escreve sobre o assunto de forma geral mas mais especificamente porque ele tem a coragem de discutir abertamente religião de forma crítica como não estando de forma alguma à parte do processo científico. A idéia de que a religião possa querer por vezes se colocar como uma “forma de conhecimento” separada da ciência e imune à lógica ou a todas as considerações que (por vezes os próprio religiosos!) fazem ao processo científico é completamente insustentavel. Ou a religião está de fato dizendo algo sobre a realidade, algo com pretensões a ser objetivamente verdadeiro, e nesse caso a filosofia da ciência é relevante e precisa ser levada em conta, ou não está, e nesse caso, importantes que as idéias religiosas sejam, pertencem ao reino da mitologia, arte, literatura ou fantasia, mas não são uma investigação coerente da realidade objetiva. Para quem gostou dessa descrição, eu recomendo o livro Breaking the Spell.

Outros livros que eu aleatoriamente gostaria de mencionar que de alguma forma discutem criticamente como a ciência de fato funciona assim como os fundamentos filosóficos da nossa própria capacidade de compreender qualquer coisa são : Beyond The Hoax (Alan Sokal), Godel, Escher, Bach (Douglas Hofstadter) e Are Quanta Real?.

Einstein Esteve Aqui

Friday, May 28th, 2010

Fuld Hall
The Institute for Advanced Study at Princeton

Eis que por uma seqüência imprevista de eventos eu acabei indo visitar o Institute for Advanced Study na cidade de Princeton. Talvez isso não signifique muito para quem não seguiu carreira acadêmica e não fica muito impressionado em andar pelos mesmos caminhos onde Einstein e Gödel passeavam juntos. Mas para mim é impressionante finalmente ver a lareira ao lado da qual algumas das conquistas mais importantes do pensamento humano foram discutidas e desvendadas, e ver o escritório onde Einstein trabalhava.

Einstein

O instituto é atípico (era mais ainda quando foi fundado) no sentido em que não é exatamente uma instituição acadêmica padrão. Ele não tem alunos, ou laboratórios, nem dá diplomas de coisa alguma. Ele também não vende, contrata ou dirige a pesquisa de nenhum de seus membros. Nao se trata, portanto, nem de uma instituição de ensino, nem exatamente de uma instituição de pesquisa. É uma instituição, como diz o nome, de estudos avançados. A idéia é que algumas das melhores e mais brilhantes mentes que puderem ser encontradas serão convidadas a se juntarem ao instituto para então serem deixadas em paz para pensarem… no que quiserem.

Ironicamente, ao longo dos anos, foi repetidamente observado que essa proposta não é necessariamente a mais produtiva em termos de resultados científicos. Vários cientistas acima de qualquer suspeita, como por exemplo Richard Feynman, observaram que toda essa liberdade, que em princípio permitiria aos gênios explorarem suas idéias sem as amarras dos compromissos usuais, acabaria na prática gerando ao invés disso estagnação e paralisia. Segundo Feynman, é preciso um certo grau de urgência e de problemas sendo atirados no seu colo para manter a mente ativa e produzindo.


Andando aleatoriamente pelo Institute for Advanced Study

Seja como for, algumas das mentes mais brilhantes do mundo de fato passaram pelo instituto. O número de vagas permanentes, porém, é bastante limitado; a maior parte dos pensadores recebe apenas posicões temporárias e são periodicamente substituídos.

O local inteiro, embora extremamente agradável e confortável, não é muito grande nem arquiteturalmente impressionante. De fato a impressão é a de que este seria o resultado de um monte de matemáticos se juntando e decidindo “ok, precisamos de uns prédios aqui”. Seu significado porém é imenso, e de certa forma essa simplicidade e despojamento nos fazem apreciar e entender ainda mais profundamente a escala de valores e a personalidade daqueles que ali trabalham. Nada de colunas neoclássicas de mármore com 30 metros de altura, nada de prédios com ângulos impossíveis revestidos de vidro e aço, nada de arabescos ou gárgulas. Não estamos aqui para impressionar ninguém. Estamos aqui para pensar.

Ainda Ateísmo

Thursday, May 27th, 2010

“Religion is based … mainly upon fear … fear of the mysterious, fear of defeat, fear of death. Fear is the parent of cruelty, and therefore it is no wonder if cruelty and religion have gone hand in hand … My own view on religion is that of Lucretius. I regard it as a disease born of fear and as a source of untold misery to the human race.”
-Bertrand Russell

Com o risco de chover no molhado e voltar a um tema requentado e excessivamente debulhado a ponto de ficar chato, voltemos ao tema do ateísmo. Ao escrever esse tipo de texto considero que estou (espero estar) prestando um serviço de utilidade pública ao me dar ao trabalho de explicar o que deveria ser abundantemente óbvio. Mas se não é óbvio para certas pessoas intelectualmente honestas e que buscam a verdade, então de fato é muito importante que alguém escreva sobre o assunto, nem que seja para dar apoio moral a quem olha para certas coisas e pensa “mas peraí, isso não faz nenhum sentido” e no entanto acaba por questionar o próprio julgamento diante da ausência de pensamento divergente e idéias discordantes no universo social no qual habita.

Enfim, a motivação desta vez é a seguinte. Volta e meia recebo mensagens de leitores afirmando que tal ou qual resposta a um de meus textos sobre ateísmo merece comentários, que apresenta argumentos sólidos, que desconstrói completamente o que eu falei e coisa e tal. Em geral eu já conheço as tais respostas, e não comentei nada porque são muito fraquinhas e não acrescentariam absolutamente nada ao debate. No entanto, como eu coloquei, talvez o que seja absolutamente óbvio para mim não o seja para alguns leitores, e existe uma pequena chance de que nem todos eles tenham se fechado hermeticamente a argumentos e a pensar criticamente sobre o assunto. Então, assim sendo, lá vai.

A primeira resposta que vou comentar está publicada aqui  : Refutando um ateu

Essa resposta já começa muitíssimo mal ao anunciar que vai usar um fomato inspirado no disputatio medieval. Repito aqui o que já disse diversas vezes. Existe uma diferença brutal e grotesca entre reverenciar o intelecto de pessoas brilhantes do passado que foram capazes de ver muito adiante de seu tempo versus citá-las literalmente ou achar acriticamente que os métodos e idéias que eram revolucionariamente geniais há séculos atrás ainda o sejam pelos padrões de hoje.

Enfim, a resposta em questão se refere ao meu texto Ateísmo Para Principiantes.

A resposta começa por fazer a seguinte afirmação sobre o meu texto :

1) É possível fazer uma analogia entre Deus e o Papai Noel. São duas crenças, e de mesmo grau.

Já nesta primeira frase, a desonestidade (ou alternativamente a obtusidade) do autor fica clara. Absolutamente não afirmei isto colocado acima, e muito pelo contrário, escolhi Papai Noel ao invés de Zeus ou Horus como exemplo especificamente porque é razoavelmente incontroverso (exceto para quem é maluco ou não tem absolutamente nada melhor para fazer) que Papai Noel não exista de fato. Apesar disso, caso fosse contra a lei não acreditar em Papai Noel ou caso eu fosse regularmente atacado por questionar essa crença, discutir a existência de Papai Noel cresceria muito em relevância, e é esse tipo de reação e posição que caracteriza os ateus, não em geral um arcabouço filosófico maior em comum. Eu estou nesta parte do texto discutindo a falta de unidade ideológica entre ateus, não se a crença em deus é filosoficamente equivalente à crença em Papai Noel.

Mas então, ironicamente ao extremo, a resposta prossegue para afirmar :

NEGAÇÃO: O argüente constrói um “boneco de palha” do Deus cristão. O Deus cristão não é um mito, é o ser infinito e necessário. Não consta que Papai Noel seja um ser infinito, mas sim um ser contingente e ficcional.

Ora, santas ironias. Isso de dizer que eu estou construindo uma equivalência entre deus – e veja só, especificamente o deus cristão, que eu nem sequer menciono, afinal ateus não acreditam em NENHUM deus, não só no cristão – isso sim é um ridículo boneco de palha. Esta parte do meu texto nem sequer discute se deus existe ou não, e sim o fato de que crer ou não crer em deus não são posições sustentadas por grupos com perfis similares de unidade ideológica.

Segue-se então um amontoado de – não há como descrever de outra forma – baboseiras sobre  “o ser infinito já foi demonstrado desde Parmênides” :

o Ser infinito já foi demonstrado desde Parmênides, e aqui demonstramos da nossa forma: ou há algo, ou não há nada. Se nada há, nada se questiona, logo algo há, algo é. A este algo, a esta positividade, a esta estabilidade, a metafísica chama de ser. Ou o ser é finito e contingente ou é infinito e necessário. Se é finito e contingente, houve um tempo em que nada houve. Mas do nada absoluto nada pode provir, porque nada não há, o nada não afirma nada, não tem positividade. Logo, o ser é infinito e necessário. Este ser infinito e necessário é o Deus cristão.

Este parágrafo é um amontoado de palavras em busca de um significado. Metade dos termos não têm qualquer significado minimamente rigoroso ou aplicável de qualquer forma útil, e saltos inacreditáveis são dados mesmo que aceitemos a “lógica” interna do “raciocínio”. Chegamos aqui num ponto em que, sinceramente, nem adianta explicar. Isso aí acima  é um monte de besteiras. São coisas como esta que fizeram a metafísica perder sua credibilidade. Não que eu pessoalmente ache que ela não tenha importância ou lugar na filosofia ou mesmo na ciência moderna, mas isso aí é só uma chutação total sem qualquer rigor.

Vou me concentrar portanto em uma parte do argumento que é a menos delirante, embora ainda respondida de forma equivocada, que é : Como resolver o legítimo e profundo problema metafísico de que existe qualquer coisa? Por que existe algo ou invés de nada? Esse é o problema que de fato precede todos os outros e que está na base de grande parte das tentativas de construir uma teologia que parta de (ou pelo menos respeite) lógica e razão. Só que dessa questão não resolvida, vezes demais se parte então para postular alguma “causa primeira” com todo tipo de propriedades arbitrárias e que magicamente não requer ela mesma uma explicação, geralmente com pseudo-justificativas do tipo “ela sempre existiu”. Ora, se é para postular que algo sempre existiu e que por isso não precisaria de explicação (que já é evidentemente uma enrolação, mas aceitando esse argumento) então nesse caso vamos postular que o universo sempre existiu, ou que as leis da física sempre existiram, e que as leis físicas são logicamente necessárias do jeito que são, embora ainda não tenhamos entendido o motivo. Isso é muito mais metafisicamente satisfatório do que criar entidades com propriedades fantásticas que não temos nem remotamente condições de determinar ou justificar.

Enfim, a resposta parte então para as seguintes afirmações sobre o trecho seguinte do meu texto :

Proposições contidas
1) Religiosos em geral não duvidam de suas posições, acreditam estar certos.
2) Ateus, pelo contrário, são céticos sobre quase tudo. A única certeza deles é a de que Deus não existe.
3) É incontornável o fato de que alguém está certo e alguém está errado.

Mais uma vez, essas afirmações só podem ser explicadas por desonestidade ou obtusidade. Em primeiro lugar, a afirmação (1) não foi originalmente feita por mim, e sim precisamente pelo texto que estou criticando. Mas isso colocado, eu de fato acho que muitos religiosos parecem – não raro anunciam abertamente – assumir uma posição perfeitamente acrítica e dogmática diante de suas crenças. Mas seja como for, e seja quão críticos e ponderados alguns religiosos sejam antes de chegarem às suas conclusões, grande parte deles – e isso depende em parte da religião específica – de fato aceita argumentos baseados em autoridade, tradição ou revelação como perfeitamente válidos.

Então eu cuidadosamente passei a descrever que isso distingue a mim, eu, pessoalmente, do religioso padrão. Note-se, eu *não* acho, nem defendi, que a minha posição pessoal seja representativa de todos os ateus ou mesmo dos ateus em geral. Mutíssimo pelo contrário; eu repetidamente argumento que não existe posição filosófica ou ideológica unificada entre os ateus, e que essencialmente a única coisa que os *une* numa categoria – absolutamente não a única coisa em que acreditam – é não acreditarem em deus. Então descrever o que eu disse como sendo o enunciado em (2) é uma falsificação total; não só não é o que eu disse como é oposto ao que eu disse em vários aspectos. Se o autor realmente depreendeu honestamente algo como o que está em (2) do meu texto isso é algo que beira o analfabetismo funcional e é risível (ou conversamente altamente apropriado) que vá querer então construir um debate escolástico (entre si mesmo e um exército de bonecos de palha). No texto original, eu sublinho veementemente a questão de que nem todos os ateus rejeitam a idéia de deus pelos mesmos motivos, e que variam enormemente em suas crenças e ideologias. Esse é um dos principais temas do texto inteiro. Eu não acho nem afirmei que a maior parte dos ateus seja “cetico sobre quase tudo”, e aliás nem que *eu mesmo* seja cético sobre quase tudo – o que eu afirmei foi o que o tipo de argumento que eu aceito como legítimo exclui vários dos tipos de argumento que o religioso médio aceita como legítimo. Mas eu de fato aceito muitos argumentos concretos como legítimos e em muitos fatos como solidamente estabelecidos (o que não quer dizer que não possam ser legitimamente questionados, apenas que é preciso que sejam apresentados contra-argumentos de força suficiente). Apenas não aceito que crença em fatos deva ser decidida com base em tradição, revelação ou autoridade, como ostensivamente grande parte dos religiosos abertamente faz.

Em resumo, é simplesmente ridícula a afirmação de que eu teria dito, seja sobre “os ateus”, seja sobre mim mesmo, que “a única certeza deles é de que deus não existe”. Isso não tem absolutamente nada a ver com qualquer coisa que eu tenha dito. Muitos ateus inclusive são ridiculamente pouco críticos, e divergem dos religiosos apenas por acreditarem em autoridades (ou fantasias) diferentes. O autor da resposta segue porém não só partindo dessas premissas absolutamente absurdas sobre o que eu teria dito como procede mais uma vez a construir argumentos tão completamente delirantes que não há nem o que comentar. Eu posso me munir de paciência e me aventurar a refutar afirmaçoes como “o Sol gira em torno da Terra”, que estão completamente erradas, mas que pelo menos fazem sentido e nas quais há concebivelmente motivos para acreditar. Mas não há paciência que se justifique para afirmações do tipo “já que o Sol gira em torno da Terra seu magnetismo animal aquece a aura da atmosfera terreste e provoca permutações astrais”. É esse o nível do discurso com o qual nos defrontamos aqui. Não existe sequer o que refutar. São Tomás de Aquino provavelmente teria vergonha de se ver citado num contexto como esse, e *certamente* retiraria grandes partes das coisas que escreveu se pudesse ter acesso à lógica, à filosofia e a ciencia modernas. Argumentar no século 21 com base nas categorias metafísicas e na estrutura lógica que prevaleciam na escolástica medieval é RIDÍCULO.

Sobre a proposição (3), eu *de fato* a coloco – é incontornável o fato de que alguém está certo e alguém está errado. E tanto quanto é possível decodificar do festival de confusão mental no trecho da resposta que se segue, o autor afirma exatamente o mesmo que eu, embora por vias altamente tortuosas – que é inescapável que exista uma verdade necessária, e que se discordamos sobre características irrenconciliáveis da sua natureza última, um dos dois lados está inescapavalmente errado. Agora, repetidamente dizer “e essa verdade necessária é o deus cristão” é simplesmente patético, dado que “o deus cristão” envolve um grande conjunto de características que de forma alguma decorrem automaticamente do simples princípio metafísico de que é preciso haver no fundamento de tudo uma verdade necessária. Essa “verdade necessária” poderia envolver um deus, três deuses, infinitos deuses, ou zero deuses. Minha posição pessoal é que tudo indica que envolva zero deuses, não que eu negue o princípio metafísico de que a verdade, em algum nível de abstração, é necessária.

Do mesmo trecho do meu texto são “extraídas” as seguintes proposições :

4) Ateus em geral fundamentam seus argumentos; religiosos em geral não.
5) Religiosos em geral aceitam argumentos de autoridade, tradição e revelação, enquanto um ateu os rechaça.
6) A fé não é uma boa base para um sistema de crenças.

Novamente, o autor da reposta confunde completamente em (4) o que eu afirmo sobre *mim* como sendo algo que eu estaria afirmando sobre todos os ateus, algo que eu digo com todas as palavras que não é o caso. Mas mesmo tomando como descrição do que teria dito sobre mim, é completamente absurda. Eu não disse que os religiosos não fundamentam seus argumentos, apenas que quase a totalidade deles aceita como argumentos válidos categorias de argumentos que eu absolutamente não aceito como tal.

E sim, a primeira parte de (5) é não só ontensivamente e admitidamente verdadeira como em grande parte das religiões, uma exigência formal. Quando a isso ser diferente para os ateus em geral, mais uma vez – eu *não* acho que todos os ateus pensem igual a mim, e isso é um dos principais pontos do meu texto. Inúmeros ateus estão perfeitamente felizes em aceitar autoridade, tradição ou mesmo revelação, apenas divergem dos religiosos sobre quais autoridades, tradições ou revelações consideram legítimas.

Sobre (6), o único ponto sobre o qual o autor realmente diz algo novo, finalmente – embora mais uma vez de forma convoluta – se coloca algo que parece com um argumento que vale a pena considerar, que é o seguinte : a fé é um elemento indispensável em qualquer sistema de crenças. Esta não é uma afirmação absurda, mas sobre ela eu tenho duas observações.

A primeira observação é que apesar de não ser absurda, ela é falsa. É perfeitamente possível produzir todos tipo de afirmações cuja verdade é logicamente necessária sem que isso envolva qualquer tipo de fé. É perfeitamente possível ter crenças que não dependam de qualquer suposição arbitrária. Certo, é verdade que a derivações lógicas partem de conjuntos de axiomas. Porém não há nada de errado com o conjunto vazio como ponto de partida, e é simplesmente errado concluir que dele nada podemos derivar. É verdade que deste ponto de partida somente poderemos construir teorias tautologicamente equivalentes ao conjunto vazio, mas se vamos argumentar que nosso universo está fundamentado em última análise em verdades logicamente necessárias, nosso objetivo último deveria ser precisamente explicar como é possível derivar o universo inteiro do conjunto vazio – um projeto altamente ambicioso que talvez nunca seja possível realizar completamente. Mas não, a fé não é necessária para “qualquer” sistema de crenças.

A segunda observação é que mesmo que aceitemos que nem todo sistema de crenças requeira fé, algúem poderia observar que quando lidando com conhecimento incompleto e limitado, como é a condição humana, talvez necessitemos de dar alguns saltos de fé para podermos tomar decisões úteis. A fé seria então necessária para uma grande parte dos sistemas de crenças com aplicabilidade prática. Agora veja, o fato de que é preciso por vezes supor como verdade algo que não conseguimos estabelecer como logicamente necessário não significa então que vamos sair acreditando em qualquer coisa, ou que todos os sistemas para escolher crenças sejam equivalentes. Certo, é claro que é possível que todas as nossas percepções sejam falsas, que seja tudo um sonho, uma simulação de computador, um delírio. Do ponto de vista *estritamente* lógico, o fato de que o sol nasceu rigorosamente todos os dias desde que nascemos não torna sequer mais provável que ele vá nascer amanhã. Mas para ter uma vida que faça sentido, e tomar alguma decisão ao invés de ficar atolado num pântano metafísico, você tem que escolher acreditar em alguma coisa – por exemplo que o Sol vai de fato nascer de novo amanhã. Eu aceito este argumento. Mas não decorre daí que “então o sistema de crenças X está certo”, aliás muito pelo contrário – o que se está argumentando é precisamente que nenhum sistema de crenças desse tipo – que exija saltos de fé – é logicamente justificável.

A questão é precisamente como escolher entre sistemas de crenças que, a rigor,  não podemos justificar logicamente, pelo menos não de forma necessária. E é aí que entra o princípio científico da navalha de Occam – não vamos sair fazendo suposições a não ser que elas acrescentem poder explicativo ao modelo que estamos construindo para buscar explicar os fatos que estamos admitindo como verdadeiros. Os modelos científicos, porém, são de fato admitidamente provisórios e injustificáveis como logicamente necessários. Isso não significa porém que sejam arbitrários. Tomar decisões lógicas com informações incompletas não garante acertos mas não é equivalente a escolher aleatoriamente. Agora, de um ponto de vista mais prático, a principal justificativa para a ciência é que ela FUNCIONA. Como já dizia Einstein, a coisa mais impressionante, maravilhosa e surpreendente sobre o universo é que é possivel entendê-lo. Enquanto a ciência nos deu reatores nucleares, naves espaciais e computadores, os modelos de como a realidade funciona baseados em teologia e similares não foram capazes de concretamente explicar, prever ou esclarecer absolutamente NADA, em nenhum nível, físico, metafísico, psicológico ou de nenhuma outra ordem. A realidade simplesmente NÃO FUNCIONA do jeito que as investigações teológicas prescrevem, descrevem ou prevêem e isso ao longo da história é repetidamente e facilmente observável. A principal função cumprida pelas crenças religiosas é criar um falso, ilusório e pernicioso conforto diante das questões para as quais se formos honestos não temos resposta satisfatória.

“What men really want is not knowledge but certainty.”
-Bertrand Russell

Agora, novamente, eu admito que do ponto de vista estritamente lógico é perfeitamente possível que, digamos, quem esteja certo mesmo seja a Igreja da Cientologia e Xenu tenha explodido bilhões de pessoas com bombas atômicas. Mas isso para mim é tão realista e verossímil quanto Jesus ressuscitando pessoas ou nossa” alma” voltando encarnada num sapo. Não existe absolutamente qualquer evidência a favor de nenhuma dessas coisas, e entre algo que repetidamente faz previsões extraordinariamente confiáveis, mesmo que essa previsões tenham em parte sido obtidas por tentativa e erro e não por deducão rigorosa, versus um outro sistema de crenças que faz todo tipo de afirmações delirantes sobre a realidade que nunca se observam em lugar algum, eu sinto muito, eu fico com o primeiro. Inclusive diante da impossibilidade de deduzir logicamente como o universo funciona, a grande força da ciência é justamente ter a humildade de admiti-lo e estar disposta a constantemente mudar de idéia quando suas previsões falham – que é muitíssimo mais do que se pode dizer da quase totalidade das crenças religiosas. Então pode ser o caso de que talvez amanhã toda a ciência como atualmente consta dos jornais acadêmicos pare completamente de funcionar, e comece a chover sapos e anjos desçam do céu, mas nesse caso os cientistas serão metodologicamente obrigados a reverem seus conceitos sobre como o universo funciona. Novamente, ao contrário de grande parte dos religiosos, que mesmo diante de montanhas de evidências, aferram-se a crenças imutáveis e inamomíveis usando (quando se dispõem a tanto) de argumentos como esse de que “a fé é um elemento incortornável de qualquer sistema de crenças”. Bolas, mesmo quando é, não significa então que seja igualmente razoável sair acreditando em qualquer coisa.

“The trouble with the world is that the stupid are cocksure and the intelligent are full of doubt.”
-Bertrand Russell

O que nos leva finalmente de volta à minha afirmação original : a fé nao é uma boa base para um sistema de crenças. Se formos chamar de fé qualquer crença que não pudermos estabelecer como verdade logicamente necessária, então de fato em várias circunstâncias teremos que sustentar crenças deste tipo se não quisermos ficar paralisados num atoleiro existencial. Mas isso não significa que a fé seja necessariamente a *base* do meu sistema de crenças, não no sentido de que seja o fator preponderante ou mais significativo. Se alguém for argumentar que é a fé que torna meu sistema de crenças possível, e por isso é sim a base dele, eu observo que não, ela *não* torna meu sistema de crenças logicamente justificável; de fato, nada pode fazê-lo, não no atual estágio em que estamos no entendimento da realidade. A fé é apenas um quebra-galho, um tapa-buracos para o fato de que eu não sei tudo. Mas certas suposições se revelam mais úteis e mais esclarecedoras e com maior poder preditivo do que outras, e eu acho desejável preferir essas suposições às outras. Então, nesse sentido, as suposições são completamente arbitrárias enquanto as conclusões não são, e é pelas conclusões que eu julgo a qualidade das suposições. Os religiosos tendem a inverter isso completamente e insistir em suposições engessadas e imutáveis, tomando portanto a fé como base de seus sistemas de crenças, ao invés de fazerem exatamente o oposto – escolher as suposições não justificáveis que vão fazer com base no quanto as suas conseqüências parecem ser compatíveis com a realidade de fato observada.

Finalmente, o autor “extrai” do mesmo trecho do meu texto as seguinte afirmações :

7) Acreditar em Deus é uma posição circunstancial, não metodológica ou a priori.
8 ) Para a crença em Deus se justificar, é necessária:a) a comprovação empírica de sua existência.b) uma definição que faça sentido e que apresente evidências
9) Tudo o que não possui comprovação empírica é dotado de um aspeco mitológico.

Quanto a (7), isso não é algo “refutável”; eu estou descrevendo a minha posição pessoal.

Quanto a (8), sim, é claro que é preciso haver uma definição que faça sentido. Não dá para debater se deus existe ou não sem que se apresente uma descrição minimamente consistente sobre de quê estamos falando, algo que a maior parte dos religiosos falha completamente em fazer. Note que se formos levar a sério o fato de que o autor afirma ter “refutado” (8), ele quer então que aceitemos a existência de deus sem qualquer evidência empírica (“comprovação empírica” é uma besteira) e também sem uma definição rigorosa seguida de argumentos sólidos. E a rigor, ele está certo – a mera crença em deus não requer qualquer uma dessas coisas, assim como não o requer a crença em gnomos habitando o centro da Terra. A crença em coisas aleatórias requer apenas a vontade de acreditar.

“I wish to propose for the reader’s favourable consideration a doctrine which may, I fear, appear wildly paradoxical and subversive. The doctrine in question is this: that it is undesirable to believe a proposition when there is no ground whatever for supposing it true.”
-Bertrand Russell

Quanto a (9), isso (como inúmeras outras afirmações) não tem absolutamente nada a ver com qualquer coisa que eu tenha dito.

Enfim, eu poderia prosseguir discutindo ponto por ponto o resto do texto, mas ele é completamente desprovido de conteúdo, de mérito, ou mesmo de evidências de ter sido capaz de sequer entender o que eu disse no meu texto original. Está encharcado de confusão mental e de erros de lógica básica, e é uma perda total do meu tempo ficar “refutando” essa extensa besteirada. Inclusive estou cogitando seriamente parar de fazê-lo até mesmo parcialmente no futuro; qualquer ponto que eu poderia querer ilustrar ao dar corda para esse tipo de coisa já foi extensamente exemplificado no passado, e quem não quiser ver continuará mesmo cego. Infelizmente não tenho qualquer dúvida de que isso será interpretado como “oh, se você não está respondendo é porque ficou sem tem o que dizer / não tem resposta / foram apresentados argumentos irrefutáveis”. Longe disso, longe disso. É apenas que esse tipo de texto longe de serem “refutações muito bem estruturadas”, é só um festival de sandices.

Entre outros exemplos que eu poderia citar : eu escrevo que “se a ciência universal fosse atingida, ela nos diria se deus existe ou não” e o sujeito escreve que eu teria dito que “sem a ciência universal, é impossivel afirmar se deus existe ou não”. Eu digo A => B e o sujeito afirma que eu estou dizendo que ~A => ~B, um erro absolutamente básico de lógica que não se admitiria num estudante iniciante. E essa pessoa quer escrever uma refutação nos moldes de um debate escolástico!

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Uma outra resposta um pouco menos primária pode ser encontrada aqui : O empirismo ateísta na corda bamba

Digo um pouco, mas não muito. Em primeiro lugar, o autor parte já de saída do equivocado princípio de que eu só aceitaria argumentos baseados em observacões sensíveis, e não em princípios lógicos ou necessidades metafísicas. Ora, não é que eu não aceite tais argumentos em princípio – apenas eles não existem. E não me venham com São Tomás de Aquino, Santo Anselmo e outras coisas desse tipo porque o que eles nos dão em termos de argumentos ontológicos é simplesmente ridículo e absolutamente não estabelece necessidade lógica alguma de um deus nos moldes cristãos. Existe uma distância brutal entre argumentar pela necessidade de uma “causa primeira” e dizer “então taí, é o deus cristão”. Chamar as verdades que são logicamente necessárias de “deus cristão” não lhes atribui magicamente nenhuma das inúmeras outras características sustentadas pela teologia cristã, nem exime o autor de justificar tais características. Mas ok, pinçando como pinçou o autor uma afirmação completamente fora de contexto, não é supreendente que sua interpretação esteja facilmente sujeita a distorções.

Mas daí ele passa então a fazer outras afirmações mais genéricas que não têm diretamente a ver comigo, como por exemplo de que “Hoje, o grande inimigo do ateísmo é a ciência mais atual.” Er, não, não é, e no caminho para buscar afirmá-lo o autor faz várias afirmações altamente impróprias. Para começar, a ciencia clássica em si mesma absolutamente não é universalmente baseada no “empirismo”. Muito antes de se falar em teoria da relatividade ou em mecânica quântica, a posição filosófica de positivistas e assemelhados, popular que tenha ficado em um dado momento, sempre foi apenas uma facção entre outras e absolutamente não a posição unânime na comunidade científica.

Adicionalmente, o ateísmo absolutamente também não tem como fundamento filosófico essencial nenhuma reverência ao empirismo. Grande parte – diria eu todos os sérios – pensadores ateus aceitariam prontamente argumentos lógicos ou metafísicos a favor da existência de deus caso lhes fosse apresentado um que considerassem válido. Evidentemente diante disso a atitude científica seria verificar que as conseqüências necessárias desses argumentos de fato se observam (e se não fossem observadas seria razoável concluir que existe um equívoco em algum lugar), mas tais argumentos não seriam rejeitados por princípio, só por não serem “evidências empíricas”. Apenas eles não existem. Claro, se apesar de não haver um argumento lógico sólido desde primeiros princípios alguma observação prática revolucionária fosse feita – e aí entra a parte do meu texto que foi citada – então mesmo assim isso seria um motivo forte para rever a posição ateísta. Mas absolutamente não é o caso de que tais observações sejam necessárias como pré-requisito para a idéia ser considerada seriamente.

Além disso, o ateísmo também não está filosoficamente fundado ou associado nenhuma forma à mecânica clássica como quer fazer crer o autor do texto. Para começar, se quisermos construir o argumento de que a ciência avançada caminha no sentido de desvendar um mundo real que está vastamente distante dos sentidos e que absolutamente não é acessível, mesmo com muito boa vontade, diretamente através de observações “empíricas”, eu não só *concordo* com isso, como não é preciso chegar à mecânica quântica para encontrar exemplos. A presença de hélio no sol, a existência de átomos com núcleos e elétrons, a verdadeira natureza das estrelas como objetos concretos brilhantes a grandes distâncias, a evolução das espécies, a gravitação universal, a verdadeira natureza da luz como oscilação de campos elétricos e magnéticos, tudo isso foi atingido pela mecânica clássica e está muito, muito distante do que se pode chamar exatamente de “empírico”. Claro, observações empíricas foram necessárias para se chegar às teorias correspondentes, mas as teorias vastamente superam as observações e falam sobre a estrutura do real de formas que transcendem imensamente o que é diretamente observável. O que possivelmente a mecânica quântica traz de filosoficamente novo é embaralhar significativamente o conceito de nexo causal, mas isso de forma alguma é impeditivo seja para o empirismo seja para o ateísmo.

Enfim, é simplesmente falso que “um dos principais argumentos do ateísmo” seja o empirismo, ou que a transição de ciência clássica para ciência moderna tenha causado (ou sido forçada por) um abandono do empirisimo, ou que a mecânica quântica ou a ciência moderna de modo geral apresente qualquer problema para o ateísmo. Inclusive é muito irônico e até constrangedor que o autor venha acusar os ATEUS de antropocentrismo enquanto a maior parte das religiões é que defende que o ser humano seja filosoficamente, cosmicamente, metafisicamente algo de profunda relevância para o universo, quiçá o propósito mesmo da sua existência.

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Para recompensar os leitores que tiveram a paciência de chegar até aqui, alguns links divertidos :

Things Atheist Didn’t Do

Still More Things Atheists Didn’t Do

Things Atheists Didn’t Do In 2009 (Part 1)

Things Atheists Didn’t Do In 2009 (Part 2)

Amor e Medo

Friday, May 21st, 2010

No dia seguinte ao natal de 1862, mais de 40 mil soldados americanos receberam ordens de avançar,  em direção a uma formação de aproximadamente outros 40 mil soldados… também americanos, que estavam na cidade de Murfreesboro, Tennessee. Foi um dos momentos mais importantes da guerra civil americana, e a ordem pouco usual de iniciar uma ofensiva durante o inverno partira diretamente de Abraham Lincoln, que estava profundamente frustrado com a hesitação de seus generais em avançarem decisivamente contra as forças confederadas e desejava resultados concretos para uma campanha que a seu ver já havia se alongado muito mais do que seria estrategicamente apropriado.


Yankee Doodle

As forças confederadas estavam plenamente cientes do avanço do exército inimigo e, não tendo qualquer intenção de ceder terreno, tomaram posições defensivas para a batalha. Os dois exércitos se encontraram em 30 de dezembro de 1862, quando as forças do norte, estacionadas em alguns pontos a menos de um quilômetro do exército confederado, cessaram seu avanço e iniciaram os preparativos para uma grande ofensiva no dia que se seguiria.


I Wish I Was In Dixie

Todos os soldados ali presentes sabiam precisamente o que se seguiria. Ou melhor, sabiam que haveria uma batalha; absolutamente não sabiam qual seria o resultado, quem venceria, se ainda estariam vivos ao fim do próximo dia ou se jamais veriam novamente seus lares, suas esposas, seus filhos, seus pais, se jamais retornariam à cidade onde haviam nascido. Tanto quanto sabiam, sua vida poderia acabar ali, seus corpos pisoteados, abandonados, esquecidos  e enterrados numa vala.

Caiu a noite e como muitas vezes ocorria em situações similares, ambos os lados começaram a se preparar não apenas logisticamente mas também psicologicamente para a batalha. As bandas de cada exército começaram a tocar hinos e marchas exaltando o patriotismo e o caráter regional de cada exército. Eles estavam tão próximos, porém, que as bandas podiam ouvir claramente umas às outras, e começaram a competir entre si. Uma banda do exército do norte, por exemplo, tocaria Yankee Doodle, ao que uma banda do sul responderia em seguida com Dixie. Isso se prolongou por vários turnos, até que em um dado momento, uma das bandas começou a tocar Home, Sweet Home.


Home, Sweet Home

Agora vejam, esta música era popular em ambos os exércitos e não exaltava nenhum dos dois lados. Ao invés disso, falava do significado do lar, da terra natal, e de estar entre  as pessoas que você ama :

Mid Pleasures and palaces though I may roam,
Be it ever so humble, there’s no place like home;
A charm from the sky seems to hallow us there,
Which, seek through the world, is never met with elsewhere. Home.

Diante disso, as bandas do lado oposto começaram a se juntar à mesma canção, e os soldados de ambos os exércitos, prestes a se assassinarem mutuamente, começaram todos a emocionadamente cantar juntos. Em pouco tempo, estavam unidos pelos exatos mesmos sentimentos de saudade, fraternidade e humanidade, pelos mesmos sentimentos de amor por tudo o que prezavam e de medo diante de tudo o que estava por vir. Uma união insustentável, numa situação insustentável, um momento surreal de encontro no qual todas as profundas raízes, crenças e desejos comuns entre ambos os lados nesta luta fratricida foram trazidos à tona. Cantando juntos no meio da noite quase puderam esquecer que o tempo passava inexoravelmente e que ao amanhecer tudo seria diferente. Ao longo da noite, pouco a pouco as bandas foram parando até reinar o silêncio.


Home, Sweet Home

No dia seguinte, milhares de soldados morreram numa que foi uma das batalhas mais sangrentas de uma guerra que ainda se prolongou por mais dois longos anos.

Não é minha culpa, não é meu problema

Saturday, May 15th, 2010

Uma das respostas mais convenientes para a omissão diante do mal, geralmente pronunciada com incontida satisfação com a própria argúcia, é : NÃO É MINHA CULPA, NÃO É MEU PROBLEMA.

Aqueles que acham este raciocínio uma fortaleza de lógica e um respeitabilíssimo princípio moral parecem (seja genuína ou hipocritamente) não perceber quão ridiculamente mal disfarçada esta é, despida de sofismas e maquiagens, simplesmente uma afirmação de que NÃO ME AFETA, NÃO É MEU PROBLEMA.

Por esse raciocínio,  se você está passeando sozinho na praia e então observa um bebê abandonado na areia, você pode perfeitamente pensar “eu não causei isso, eu não tenho nada a ver com isso, vou continuar caminhando, não é minha culpa, não é meu problema”. Se você trabalha varrendo o chão para uma companhia que produz antibióticos e descobre por acaso que por um erro de administração um lote inteiro estragou mas eles vão vendê-lo assim mesmo para não perder milhões, você pode perfeitamente pensar “eu não causei isso, eu não tenho nada a ver com isso, não é minha culpa, não é meu problema”. Se você vê está dirigindo numa estrada à noite, observa um atropelamento com fuga do motorista deixando uma vítima agonizante no asfalto, você pode perfeitamente pensar “eu não causei isso, eu não tenho nada a ver com isso, não quero me envolver com isso, vou continuar dirigindo, nao é minha culpa, não é meu problema”. Se você trabalha numa concessionária servindo café e nota que está sendo apresentado a um cliente um orçamento de serviços para seu carro que são flagrantemente desnecessários e desonestamente superfaturados para substituir peças que estão funcionando perfeitamente além de qualquer dúvida, você pode perfeitamente pensar “eu não causei isso, eu não tenho nada a ver com isso, não é minha culpa, não é meu problema”.

Ou você pode escolher fazer alguma coisa sobre o assunto.

Percebam, escolher não fazer nada é também uma escolha, é também uma ação, é também uma iniciativa com significado ético. Mesmo que você possa argumentar que não foi o causador original de um certo resultado, e que talvez nem sequer o desejasse, isentar-se diante da injustiça, da maldade, do que você sabe que está errado e incorreto, calar-se diante da mentira, omitir-se diante da opressão, assumir calado seu papel no que você sabe que é uma farsa e uma impostura, tudo isso é sim transbordante e pleno de implicações éticas. E não fazer nada certamente afeta o outro, especialmente quando você está numa posição privilegiada para mudar o curso dos eventos. Então sim, mesmo que não seja sua “culpa”, suas ações – ou omissões – continuam tendo conseqüências e significado.

Muitas vezes somos confrontados com situações que não criamos mas sobre as quais no entanto temos poder de agir, de interferir. Não interessa de quem é a “culpa” de aquela situação existir, ela está ali e requer que você faça uma escolha sobre como vai reagir diante dela. Se você acha realmente que não ter causado a situação o isenta de qualquer responsabilidade ética, então você perdeu completamente o ponto e o espírito do que significa ética. Se sua única preocupação é “Será que alguém poderá vir a me culpar por isso?”, então transparentemente você está preocupado apenas com você mesmo. Ética não é levar em conta que se você fizer algo errado isso poderá ter conseqüências para você. Até um psicopata convicto se preocupa com isso. Ética é se preocupar com como o resultado das suas ações e escolhas vão afetar o OUTRO.

Claro, você pode aí observar : tá, ok, o fato de não ser minha “culpa” não resolve automaticamente a questão. Mas seja por ação direta ou por omissão, dirá talvez você, continua não sendo “seu problema”, no sentido em que você não aceita como responsabilidade sua zelar pelo bem estar dos outros. Você pode honestamente perguntar : por que eu deveria me preocupar com a consequência das minhas ações sobre os outros, seja ou não por omissão? Por que eu deveria me preocupar se ao buscar ativamente um benefício para mim mesmo e ao cuidar dos meus próprios interesses causo diretamente a desgraça do outro se isso não me afetar diretamente e se não houver pragmaticamente a expectativa de quaisquer represálias ou conseqüências para mim? Chegamos então ao verdadeiro fundamento da questão, que é que para alguns (muitos, possivelmente a maioria) o bem estar dos outros não é realmente seu “problema”. Mas note, esta é justamente a questão central da ética. O que você está realmente perguntando, nesse caso, é : por que deveria eu me importar com os outros, ou com agir eticamente, ou com o fato de que minhas escolhas afetam a felicidade dos seres humanos à minha volta? Por que o bem estar dos outros seria “meu problema”?

Colocada desse jeito, pelo menos é uma questão um pouco mais honesta. E eu não tenho nenhuma resposta irresistível para ela. Eu não tenho absolutamente nenhum argumento filosófico, lógico, científico ou de nenhuma outra ordem que realmente demonstre que a única posição razoável, aceitável, coerente ou justificável seja a de considerar sim o bem estar dos outros. Eu gostaria de ter, e muitas grandes mentes ao longo da história dedicaram imenso esforço para articular um motivo, mas a verdade mesmo é que não há. É essencialmente uma escolha, uma escolha com profundas implicações sobre quem somos e como viveremos nossas vidas, mas ainda assim basicamente uma escolha. Eu poderia dizer que você será infeliz com essa escolha, ou que será eventualmente punido, ou que não está sendo fiel ao seu coração, ou dar um monte de outros argumentos que, bem, refletem muito mais o meu sistema de valores do que a estrutura da realidade. Em geral, nenhuma dessas conseqüências é necessariamente verdade, especialmente se você conhecer a si mesmo e agir de forma minimamente inteligente. Ou seja, é perfeitamente possível e realista ser um patife desprezível e viver uma vida muito feliz. Inclusive, se isso não fosse verdade, não haveria qualquer dilema ou escolha a fazer.

Claro, existem milhões de motivos para escolher não aceitar essa responsabilidade, mesmo quando você a percebe como sendo de alguma forma justificada. Fazer a coisa certa pode ser custoso, inconveniente, desagradável. Agora, vejam – fazer a coisa certa quando ela coincide com os seus interesses é fácil. Difícil é fazê-lo quando ela os prejudica. Escolher fazer a coisa que você percebe como certa em casos nos quais isso vai contra os seus interesses é penoso e complexo, mas isso sim é agir eticamente.

Note, não estou dizendo aqui que devemos ser todos mártires no sentido de colocar o valor do bem estar dos outros acima do nosso e nos autodestrurimos no altar da “etica”. Eu tenho uma prerrogativa tão legítima de valorizar meu próprio bem estar quanto os outros, e eu acho muito natural e correto que em havendo conflito direto de interesses, eu valorize meu próprio bem estar mais do que o de o de um sujeito aleatório. Mas existe uma diferença enorme, gigantesca entre eu TAMBÉM considerar o meu bem estar como importante e eu considerar APENAS o meu bem estar como importante. É preciso buscar um equilíbrio aí. Mas se ao invés disso você considera o seu bem estar tão mais acachapantemente valioso do que o de todos mais que um pequeno e fútil benefício para si mesmo valha a extrema miséria e infelicidade alheia e você está perfeitamente feliz e satisfeito com isso, então meus parabéns, você é um sociopata.

Sim, você tem nas suas mãos a escolha de ser ou não o protetor de seu irmão e não apenas de si mesmo. Você é perfeitamente livre para optar. E isso só faz com que por mais forte razão ainda escolher não o ser, não enxergar como imperativa a responsabilidade e o dever de o ser, que isso seja uma posição estalante de significado.

Como Fazer Amigos e Influenciar as Pessoas

Tuesday, May 11th, 2010

Dale Carnegie foi um dos precursores do gênero atual de livros de auto-ajuda e similares. Como vários autores desse tipo, uma grande parte de seu impacto e de sua influência se derivou de sua popularidade em meios corporativos, nos quais gerenciar e extrair algo convincentemente parecido com “resultados” de pessoas absurdamente incompetentes e obtusas e/ou induzir e manipular todo tipo de pessoas a agirem contra sua felicidade pessoal, contra sua consciência e contra seus interesses é uma questão sempre presente (a isso usualmente se chama “liderança”).

Seu livro mais popular, um grande best-seller publicado em 1937 e  vendido até hoje, se chama Como Fazer Amigos e Influenciar as Pessoas.

No primeiro capítulo do livro, ele diz logo de saída algo nas seguintes linhas :

Se você for tirar apenas uma lição deste livro, apenas uma única, e for se lembrar de apenas uma recomendação prática para empregar no seu trato cotidiano com os outros e que maior impacto terá em auxiliá-lo a fazer amigos e influenciar as pessoas, é esta : NUNCA CRITIQUE NINGUÉM. Não interessa se você estiver coberto de razão, não interessa se você estiver numa posição de autoridade, não interessa se você souber ensinar à pessoa criticada como fazer o certo, não interessa se você puder consertar o problema (conserte sem criticar ninguém, ou não faça nada), não interessa se você tiver a solução para todos os problemas do mundo e os meios para implementá-la e souber exatamente que são os culpados e responsáveis. Nada disso interessa. Se você quiser fazer amigos e influenciar as pessoas, nunca critique ninguém. Nunca condene, nunca reclame, e nunca, nunca, nunca critique ninguém, por nenhum motivo, em nenhuma circunstância. [Talvez a essa altura o leitor que me conhece esteja se peguntando : Sergio, tem certeza de que você leu este livro? :-) ]

Existe toda uma coleção de motivos para ele dar esse conselho, e sem querer simplesmente atirar no mensageiro e descartar a relevância do que está sendo dito, eu diria que o que mais profundamente me irrita nesse conselho não é Dale Carnegie tê-lo enunciado, e sim o fato de que do ponto de vista estritamente pragmático existem excelentes motivos para ele dar esse conselho. Note-se, dizer que Maquiavel descreve estratégias moralmente questionabilíssimas para gerir um estado não é em si argumento para dizer que elas não funcionem (no sentido de atingir os objetivos propostos). Então se o conselho de Dale Carnegie causa extrema repulsa (e deveria, a meu ver) em pessoas com uma espinha dorsal moral (algo, admito, exageradamente raro), o problema não está exatamente com Dale Carnegie, porque ele não está delirando. O problema está com uma sociedade na qual existem fortíssimos motivos para isso ser oferecido como conselho.

Uma parte do problema é que a absoluta maioria das pessoas, apesar de todos os seus patéticos esforços para parecerem e convencerem como socialmente relevantes, é na verdade portadora de egos feitos de isopor pintado e chafurdam na mais infantil fragilidade emocional. Então se você as critica, ou aponta seus erros, imediatamente se desestruturam e têm reações aleatórias, entre as quais comumente e previsivelmente estarão atacá-lo usando recursos ao seu dispor. Então evidentemente já daí não é do seu interesse criticar ninguém.

Adicionalmente, do ponto de vista intelectual, a absoluta maioria das pessoas também navega na mais obscura confusão mental, e não tem qualquer critério minimamente coerente de verdade ou necessidade lógica. Nesse paradigma, qualquer um afirmar qualquer coisa é igualmente válido, e opiniões refletem apenas ideologias, sentimentos, preconceitos ou interesses e nada mais. Uma boa parte da humanidade efetivamente toma decisões dentro desse paradigma. Então evidentemente se você critica alguém, isso será percebido não como uma possível observação de um fato, os quais afinal de contas não existem, e sim como um ataque pessoal, movido por intenções desconhecidas mas especulativamente perversas.

Num nível um pouco mais sofisticado, existe adicionalmente a questão de que do ponto de vista moral a maioria absoluta das pessoas simplesmente nem sequer está lá. Ou melhor, para ser mais preciso – do ponto de vista ético, a maioria absoluta das pessoas nem sequer está lá. Do ponto de vista moral está lá até demais – para a quase totalidade das pessoas, importa imensamente o que os outros pensam, inclusive importa infinitamente mais – diria eu quase sempre exclusivamente – o que os outros vão pensar, e só isso. Já o que de fato é “certo” ou “errado” é menos do que irrelevante; não é sequer considerado como uma categoria. Entre os mais modernosos, pruridos de consciência chegam a ser explicitamente tratados como uma deficiência a ser expurgada em nome de mais perfeitamente verem atendidos seus interesses “práticos”.

Finalmente, existe um aspecto mais insidioso (bem, não sei se mais insidioso – certamente é particularmente decepcionante para mim) disso tudo que é o seguinte. Existem pessoas que olham pra isso tudo e com variável grau de intensidade são capazes de perceber que é o que está acontecendo, e sentem visceralmente que isso não é bom. O que elas fazem então, quase universalmente? Bem, decidem que pensar no assunto é doloroso demais e buscam polianicamente a todo custo não pensar nisso. Note, não é que busquem não se desanimar com isso, ou ter uma atitude construtiva diante disso. Buscam literalmente não pensar nisso.

E para isso, claro, não faltam argumentos  para se auto-enganar : Não vai adiantar nada. Nada pode ser feito. Deixe de ser chato, o que você está tentando provar. Para com isso. Não seja intolerante. A vida é assim mesmo. Etc, etc. Em outras palavras VAMOS TODOS COMBINAR NÃO PENSAR NO ASSUNTO. Vamos todos fingir que habitamos num mundo encantado diferente do real. Ninguém critica ninguém e ufa, todos podemos confortavelmente seguir razoavelmente em paz não fazendo nada sobre o que sabemos que está errado.

Só que a vida NÃO é “assim mesmo”. A vida é o que nós escolhemos fazer dela. Eu diria que a enorme, gigantesca pressão no sentido de “deixa disso” é em grande parte motivada não apenas pela pretensa defesa da “tolerância” ou “humildade”, mas sim (sombriamente) pelo muito menos nobre motivo de que quem é capaz de ver que tem tantas coisas erradas com o mundo se reconforta ENORMEMENTE no raciocínio de que nada pode ser feito sobre o assunto. E se nada pode ser feito, é aceitável respirar aliviado em sua complacência. Sendo esse o contexto quase universalmente vigente, não é surpreendente que quando alguém se mete a dizer que o imperador está nu, ou pior ainda, a DE FATO tomar uma atitude, isso seja profundamente incômodo, porque desmonta o argumento de que seja impossível / irreal / ineficaz fazer alguma coisa. E se torna ainda mais importante e urgente qualificar o imprudente desviante que se recusa a aderir ao tácito acordo de “vamos combinar que ninguém vai fazer nada e todos dormem tranqüilos” como ingênuo / delirante / maluco / impostor.

Sim, criticar os outros nem sempre é do nosso “interesse”. Aliás, muito freqüentemente não é. O meu ponto é que NEM SEMPRE FAZER O QUE É DO SEU “INTERESSE” É A COISA CERTA.

Alguns dos maiores líderes e maiores inspirações que temos ao longo da história da humanidade o foram justamente por serem grandes, enormes críticos, e foram considerados heróicos justamente por terem tido a coragem de continuar criticando diante de ameaças, e hostilidade, e de ondas maremóticas de “deixa disso”, e desconsiderando o que seria num escopo mais míope e egocêntrico “do seu interesse”. E grande parte das vezes eles pagaram por isso um preço enorme e se tornaram mártires no sentido mais literal da palavra de que terminaram sendo concretamente assassinados. São então retroativamente louvados e endeusados e elevados a irreal status sobre-humano, talvez em grande parte porque isso ajuda a coletividade a se libertar da responsabilidade de tomar ela mesmo uma atitude. Afinal de contas, você não é o Gandhi, né? E esse cara aí reclamando, por acaso acha que é? Como se Gandhi tivesse sido contratado para ser herói, como se ele tivesse ficado sentado esperando por instruções ou aprovação dos outros. Como se ele não fosse antes de tudo um ser humano imperfeito que se auto-escolheu para ser chatíssimo e reclamão e não se calar diante do que percebia como errado.

Gostaria de terminar dizendo – inclusive tendo em mente este último exemplo – que por termos opiniões forte não precisamos nos tornar fanáticos e querer mandar todo mundo para a fogueira, para a cadeia ou para o inferno, nem eu – que fique claríssimo – estou defendendo isso. Mas não ter opinião sobre nada e dizer que tudo é relativo e eu não me comprometo com qualquer julgamento é simplesmente covarde. É um grande, enorme alívio conversar com quem é capaz de assumir posições claras e firmes quando lhe parecem justificadas, e que tenha a decência de se indignar com injustiças e perfídias quando as encontram, ao invés de cinicamente exclamar “ah, é assim mesmo”, ou convenientemente desresponder “quem sou eu para falar qualquer coisa” ou alienadamente conceder “talvez isso seja revolvante, mas essa conclusão é muito desagradável, então eu escolho enfiar os dedos nos ouvidos e gritar LA LA LA LA”.

Pena que tais pessoas sejam tão raras.

Honra e Dignidade

Saturday, May 8th, 2010

Algumas pessoas por vezes colocam a questão de como foi possível a Alemanha nazista ocorrer, como foi possível milhões de pessoas simultaneamente ingressarem num empreendimento conjunto de tal perversidade.

Quando eu vejo as pessoas enunciando essa pergunta, na maior parte das vezes eu fico somente irritado, e penso : a resposta é absolutamente óbvia. O motivo é que quase na totalidade das vezes, pessoas como você, que está enunciando esta pergunta, não fariam ABSOLUTAMENTE NADA sobre o assunto se estivessem na Alemanha nazista. É muito fácil *falar* sobre o assunto. Difícil é fazer a coisa certa quando isso pode ir contra os seus interesses. Se você fosse um policial e te mandassem capturar uns judeus para serem mandados para Auschwitz, você diria “não, isso vai contra a minha consciência”? Você pediria demissão do seu emprego? Você faria QUALQUER coisa? Duvido muito, muitíssimo.

Note, eu não estou dizendo que você não DEVERIA fazer nada.

Também não estou aqui dizendo que seria compreensível, justificável, muito humano e aceitável e lindamente desculpável você não fazer nada e simplesmente ficar lá colaborando. Não, não estou dizendo isso. O que estou dizendo é que com altíssimas chances, se você for estatisticamente similar à maioria absoluta das pessoas, apesar de isso ser revoltante, e absurdo, e inaceitável, e de isso tornar você um instrumento do mal, e um canalha, você faria exatamente o que mandassem você fazer.

Claro, depois poderia dizer (caso questionado, não que estatisticamente a pessoa média se importe ou considere com qualquer honestidade  o significado moral das próprias ações) “mas eu estava fazendo igual a todo mundo” ou “eu estava apenas seguindo ordens” ou mesmo chorar lágrimas de crocodilo proclamando profundo arrependimento após o fato, mas evidentemente sem que isso signifique nem remotamente que dada situação similar no futuro você não agiria – agirá – exatamente do mesmo jeito.

Então vejamos, muito se discursa por aí sobre reformar o mundo adotando tal e qual sistema econômico / politico / ideológico / filosófico / religioso. Mas não existe sistema, não existe absolutamente nenhum sistema no mundo, que supere uma multidão de pessoas egoístas, egocêntricas e para quem o próprio umbigo é a única coisa que importa, é a única coisa com a qual são psicologicamente, existencialmente, paradigmaticamente capazes de se importarem. O problema mesmo não é com o sistema ser nazista, ou comunista, ou neonazicatólico. O problema é que quando se trata de se relacionar com pessoas reais ao invés de com pessoas imaginárias, quando se trata de efetivamente considerar o bem estar de pessoas concretas quando este conflita ou compete com o que você mesmo quer, a maioria absolutissima das pessoas não é capaz de se desviar nem milimetricamente do que é cômodo, conveniente e confortável.

Evidentemente que admitir isso abertamente não é uma boa estrategia; dificilmente se conseguirá a colaboração dos outros nesses termos. Nem mesmo Hitler foi aos palanque discursar com o tema “Alemãos! Vamos nos tornar uma nação de assassinos!”. Alias, seu sucesso se deve em grande parte justamente a este *não* ter sido o seu discurso. É preciso chegar com um sorriso e dizendo “eu venho em paz” antes de começar a falar que puxa quem sabe talvez seja uma ótima idéia perseguir homossexuais.

Não que querer preservar a si mesmo seja algo injustificado, vergonhoso ou constrangedor. Essa é a parte com a qual concordo com Ayn Rand. Eu reconheço em todo ser humano a prerrogativa de legitimamente querer preservar sua própria integridade física, emocional, psicológica, moral, e de fazê-lo ostensiva e abertamente, sem pedir desculpas a ninguém.

Agora, em contrapartida – ou aliás, derivado diretamente disso – existe o reconhecimento de que os outros gozam de precisamente a mesma prerrogativa. Claro, podemos muito convenientemente dizer “Ah, isso não é problema meu, que o outro se defenda se puder”. Em outras palavras : “Por acaso sou o guarda do meu irmão?”. Essa é uma resposta completamente covarde, desonesta, hipócrita e vil.

Além disso, existe uma diferença enorme entre ser premido por circunstâncias insuperáveis nas quais não há realmente escolha… e simplesmente fazer o que é conveniente.

Infelizmente, esse parece ser o valor que norteia as (inexistentes) considerações morais da quase totalidade dos seres humanos quando se trata de tomar decisões reais que efetivamente afetam seus interesses. Algumas pessoas chegam a anunciá-lo abertamente, seja com todas as palavras, seja de forma um pouco mais críptica ao dizerem que “veja bem, o auto-interesse racional é a forma mais eficaz de promover o bem estar de todos blah blah blah”. Esse argumento, além de ser matematicamente, logicamente, objetivamente falso e falho (o auto-interesse racional facilmente leva a situações sub-ótimas de infelicidade geral e está longe de ser uma panacéa), é na maior parte das vezes simplesmente desonesto; é com freqüência demais só uma lenga-lenga para pseudo-justificar um comportamento egoísta e narcisista.

Não que os defensores de outras ideologias se saiam muito melhor; estejam eles discursando contra a opressão burguesa ou a favor da glória de deus, quando se trata de efetivamente considerar o seu papel efetivo na sociedade, o efeito que têm nas pessoas reais à sua volta, o resultado concreto de suas ações… o que de fato fazem com mecânica e previsível regularidade é o que é conveniente, confortável, cômodo para si mesmos. São quase universalmente absolutamente incapazes de abrir mão de uma infinitésima migalha do seu ego para enxergarem o outro quando o outro é de fato um ser humano concreto e real ao invés de uma multidão amorfa de seres humanos imaginários num mundo imaginário à qual estão fazendo uma enorme quantidade de bem imaginário.

Mas muitas vezes não se chega nem ao estágio de passar uma maquiagem ideológica nas barbaridades movidas pelo mais descarado egoísmo. Especialmente no cotidiano das ações já introjetadas como aceitáveis e comuns, honra e dignidade simplesmente não fazem parte da equação. Qualquer coisa é aceitável desde que não haja conseqüências. Deixar de fazer algo percebido como vantajoso para si mesmo por pruridos de consciência é em geral enxergado antes de mais nada como suspeito. Afinal de contas o ser humano médio não consegue realmente sequer conceber, dado seu próprio visceral, patológico, intransponível egosímo, que você *de fato* se importe com ele ou com os outros; então busca decriptar e decodificar seus “reais” motivos como algo mais  compreensivelmente (para ele) perverso e manipulativo.

Caso porém se cogite que você efetivamente talvez possivelmente esteja incompreensivelmente buscando promover o bem alheio, você será classificado em algum lugar entre maluco e ingênuo, e instado a parar imediatamente, tanto por quem por conveniência interessa o seu bem (afinal de contas você terá menos valor para eles se “desperdiçar” seus recursos ajudando os outros) quanto pelos seus pares (afinal de contas uma farsa é uma farsa e não vamos estragá-la mostrando o que faria alguém que *de fato* quisesse fazer as coisas direito).

Eu poderia até aceitar esse tipo de argumento vindo de quem supostamente está preocupado com meu bem estar como um objetivo em si se isso viesse acompanhado de outras ações que não consistissem apenas em me instar a parar de “desperdiçar” recursos que eu poderia estar empregando para beneficiá-los. Mas tais pessoas, também, demonstram espetacular consistência em não ter meu bem estar em mente quando isso não lhes traz algum benefício direto.

Então eu pergunto – onde estão as exceções? Onde estão as pessoas capazes de desenvolverem relações sólidas e generosas, relações baseadas em “vamos de fato cuidar uns dos outros”? Sejam onde estiverem, estão se escondendo espetacularmente bem.

Desconstruindo Adesivos

Thursday, April 1st, 2010

Adesivos observados na traseira de um carro em New Jersey
(Clique na imagem para ter acesso a uma versão maior)

Estava eu dirigindo quando observei no carro da frente a imagem reproduzida acima. Fiquei então pensando sobre se todos os adesivos teriam sido colados pela mesma pessoa ou se se trataria de uma amálgama de várias personalidades.

Particularmente constrastante me parecem os dois da coluna da esquerda. Aliás, uma análise semiótica do peixe com pernas em particular é especialmente interessante, mas acho que os leitores que concordam com isso são capazes de fazê-la eles mesmos. :-) A questão é : como que debaixo dele aparece então um adesivo com o texto “I Believe In Magic”? Entre as várias interpretações possíveis, podemos ter a que eu já mencionei : foram ali colocados por pessoas diferentes. Uma outra possível interpretação, porém, é que ele deva ser entendido no sentido metafórico; se foram colados pela mesma pessoa, me parece o mais provável.

Note-se na extrema direita a repetição de um adesivo com um texto que eu já tinha visto antes, gostado, e até mencionado aqui. De fato, a linha comum entre todos esses adesivos, exceto o da esquerda embaixo, parece ser a da defesa do pensamento crítico independente. Mas nesse caso, novamente, como interpretar o adesivo na extrema esquerda embaixo?

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Um comentário adicional : existe alguma forma decente de se referir em português a “bumper stickers”? “Adesivos” me parece genérico demais, “decalques” me parece coloquial de menos. Eu não consegui pensar em nada que me deixasse realmente satisfeito. Isso me levou a uma reflexão adicional : a desnecessidade de uma palavra para se referir a um certo conceito é provavelmente indicativa da (falta de) importância do conceito numa certa cultura; pensei então se bumper stickers são uma tradição americana muito mais do que uma tradição brasileira, e de fato me parece que são. O que isso significaria? Seria uma das causas disso que o americano médio faça questão de afirmar sua individualidade mais do que o brasileiro médio? Isso em si dá todo um outro tema. Eu diria que de fato muitos americanos parecem fazer questão absoluta de esfregar sua individualidade na cara dos outros, mesmo quando não estão se defendendo de nenhuma ameaça externa. Os americanos muitas vezes parecem passar do ponto em que se sentem confortáveis em terem uma personalidade para ingressar numa região em que a ostentam quase agressivamente.