Archive for December, 2009

Tanja Krämer e a Assombrosa Falta de Autocrítica

Wednesday, December 30th, 2009

Tanja olhando meio de lado
pra evitar o espelho

Eis que uma tal de Tanja Krämer resolve novamente escrever sobre mim.

Ela já havia escrito antes, mas este texto dela era tão constrangedoramente superficial e oco de qualquer coisa que parecesse um argumento que nem deu vontade de comentar qualquer coisa. O tipo de texto que certas pessoas escrevem quando acham que estão tão absolutamente certas que isso as isenta de dizer qualquer coisa consistente sobre o assunto – o que ironicamente tende a acontecer precisamente quando elas têm tão poucos argumentos que a solução é atacar o interlocutor ao invés de suas idéias. Achar que o meu texto tivesse qualquer coisa a ver com “eu me basto”, ou com egoísmo, ou com narcisismo, quando o próprio trecho que ela mesma cita (!) diz explicitamente que nós precisamos fazer as pazes com o fato de que há coisas que só o outro pode ser, e nós não, demonstra algo que beira o analfabetismo funcional (ou desonestidade patológica, não que sejam mutuamente excludentes).

Mas então, eis que tomada de revolta com a “porralouquice” do que digo, resolve escrever novamente, desta vez ainda mais explicitamente sobre mim, que ela absolutamente desconhece, mas que aparentemente supõe conhecer através de interpretações, digamos, imaginosas dos meus textos.

Refutar as coisas que ela fantasiou sobre mim seria uma bobagem para todos os envolvidos.

Refutar o que ela escreveu sobre o que eu escrevi já fica um pouco mais relevante, mas não muito, dado o grau de obtusidade (ou desonestidade) com que o texto foi lido.

Ora vejamos, eu escrevo que

Os homens, por outro lado, querem gastar quase zero de tempo e esforço em cuidar de sua aparência, em serem socialmente aptos, em serem atraentes, em ficar tentando entender o que poderia tornar sua imagem mais sexy. E ao mesmo tempo, seu primeiro e mais prioritário interesse é ter acesso a sexo. Agora me digam, como e em que termos pretendem ter acesso a sexo com essa atitude? O leitor pode tirar suas próprias conclusões.

E mais adiante escrevo ainda que

o homem médio provê serviços afetivos absolutamente medíocres às suas parceiras. Age de forma quase autista e não faz qualquer esboço de tentativa de aprender como agradá-las emocionalmente, ou mesmo de entender quais são as suas necessidades; em geral, inclusive, legítimas e profundas necessidades psicológicas de suas parceiras são tratadas como inconvenientes a serem tanto quanto possível contornados ou ignorados.

Disto ela conclui que

Na verdade, ele [o texto] é um produto para homens ressentidos que não conseguem namorar quem eles querem. Claro, a culpa nunca é deles. No caso, é do sistema malvadinho.

Ironicamente, parcialmente ela tem razão : é para eles também. Ó homens ressentidos do mundo, que acham que não têm qualquer responsabilidade em causar seus próprios infortúnios, e que se sentem tentados a dizer que “a culpa é do sistema” : leiam o que escrevi acima e acordem.

Agora, dos trechos acima deduzir que eu estou apoiando essa cegueira? Er, não.

Ocorre que o texto como um todo também é para as mulheres ressentidas do mundo, que acham que todos os seus problemas, de relacionamento ou não, são culpa dos homens. E dessa crítica dona Tanja não gostou nem um pouco. Que audácia, a minha, dizer certas coisas!

Que tal então apontar fatos que contradigam o que eu escrevi? Explicar como algumas das questões que eu levantei não são reais, não correspondem a como as coisas efetivamente ocorrem? Discutir pontos específicos do que eu de fato disse (ao invés de o que ela psicografou) e refutá-los se achar que pode?

Mas não, não. O “argumento” de dona Tanja se resume a “ele é o Power Ranger verde”. E se ele critica a intolerância histérica com qualquer coisa, naturalmente só pode ser porque secretamente quer justificar seus próprios vícios e falhas.

E é ai que a coisa começa a ficar interessante. Como crítica ao que eu escrevi, é só um festival de infantilidades. Mas como instrumento de retórica, começa a valer a pena comentar.

Então vejamos, ela cita um texto que escrevi sobre prostituição. Deixo claro no texto e reitero aqui que não vejo absolutamente qualquer problema moral com prostituição, e que pelo contrário, vejo problemas de várias ordens em criminalizá-la, e defendo que fazê-lo provavelmente causa bem mais mal do que bem à sociedade. Conclusão final aliás igual à qual chega (embora não pelos mesmos caminhos)… São Tomás de Aquino. Pelo raciocínio Tanjático, “Como não concluir que São Tomás de Aquino está advogando em causa própria?”. Ele só pode mesmo ser um perdedor total que se deu ao trabalho de enrolar com um monte de blábláblá sobre teologia quando na verdade o que ele queria mesmo era pegar umas putas.

Essa é uma das estratégias retóricas mais antigas do mundo, e é impressionante como o tempo passa e as pessoas continuam a usá-la. Impressionante mas não surpreendente, já que para certos segmentos da platéia continua tendo lá seu efeito, nem que seja de desviar a atenção do que não se quer ver discutido.

Vai na direção genérica do que disse (acho) Millôr Fernandes traduzindo Arthur Bloch :

1. Se os fatos estão contra você, conteste a lei
2. Se a lei está contra você, conteste os fatos
3. Se os fatos e a lei estão contra você, berre histericamente

Então é como quando um político resolve fazer campanha para acabar com as tolas e perniciosas leis anti-drogas e então tem que enfrentar “acusações” de ser um drogado. É como quando alguém expressa a opinião de que abortos não deveriam ser ilegais e então tem que ficar ouvindo “acusações” de ser “a favor” do aborto. É como quando um menino nos EUA decide que não vai recitar o juramento de fidelidade à bandeira americana até que realmente haja liberdade e justiça para todos, incluindo os gays, e então tem que ficar ouvindo “acusações” de ser gay.


10-Year-Old Who Refuses to Say ‘Pledge of Allegiance’
Until Gays Have Full Equality

É como quando os liberais clássicos anunciam que são a favor da manutenção da propriedade privada dos grandes meios de produção e então têm que ouvir “acusações” de que eles querem mesmo é que os pobres morram. É como quando certas pessoas se colocam contra a ação afirmativa… para então terem que ficar ouvindo “acusações” de na verdade serem racistas.

Então vai dar em “Dawkins é burrão” e “Rousseau não pegava ninguém, haha!”. Esse tipo de reação é tola e superficial, mas quase sempre é muito pior do que isso : é desonesta e manipulativa, e costuma indicar a total inexistência de (ou incapacidade de articular) argumentos reais. Se os fatos e a lei estão contra você, berre histericamente.

***************

Só pra completar, sobre o natal : não, dona Tanja, não é uma festa religiosa. É uma festa pagã que comemora o solstício de inverno, que já era comemorada muito antes da cristandade existir, e que muito provavelmente continuará sendo comemorada por muito tempo depois da cristandade ir parar nos livros de história. Evidentemente é muito mais fácil se apropriar de algo que já existe e dizer que foi você que inventou do que convencer todo mundo a mudar seus costumes. Então que beleza, vamos dizer que o dia de ano novo é o aniversário da data em que Moisés achou suas ceroulas perdidas e agora temos uma nova festa religiosa comemorada por bilhões.


Mensagem de natal

Ou opcionalmente podemos acreditar nisso aqui :

A Criancinha-Deus é o pão do céu. O Natal é a nossa salvação, quando as trevas se dobraram ao Menino-Deus (nosso pão do céu).

Realmente é patético o que a religião faz com as pessoas. Leva elas a escreverem coisas delirantes como essa, para então ser usada como desculpa esfarrapada para justificar dizerem com todas as palavras que “Intolerância Implacável é a Verdadeira Bondade” enquanto citam “1984″. George Orwell aplaudiria de pé.

Se você não está revoltado…

Friday, December 25th, 2009

…é porque não está prestando atenção.

Tolerância Seletiva

Friday, December 25th, 2009


Mensagem de natal

irreverência
[Do lat. irreverentia.]
Substantivo feminino.
“Desobedecendo e revoltando-se com uma irreverência heróica, funda [Lutero] a liberdade do pensamento” (Ramalho Ortigão, Figuras e Questões Literárias, I, p. 127).

Pedro publicou como mensagem de natal este texto aqui.

No texto, ele diz entre outras coisas que o máximo que se pode esperar razoavelmente dos homens é que tenham boa vontade, não caridade. Que se tivessem caridade, seriam santos, e que não é um papel apropriado para a maior parte de nós se arrogar acusar os outros de não serem santos, dada tanto a dificuldade em sê-lo quanto o fato de que poucos entre nós o somos. E adiciona a isso que a motivação para apontar falhas em outros seria primordialmente a auto-afirmação, e que estarmos corretos em nossas acusações não contradiz ou desmente esse motivo.

Parece em princípio uma mensagem que pretende ser de tolerância e paz e supostamente em defesa da humildade, mas vamos examinar um pouco mais detidamente.

Para começar, como é que alguém que está defendendo precisamente a “boa vontade” em não julgar os outros constrói um argumento para justificar que a paz na terra seja dada apenas àqueles… que têm a tal “boa vontade”? Essa é a essência da eterna contradição do pensamento católico : vamos todos ser fraternos, e humildes, e amigos… exceto claro com quem não concordar conosco, esses julgaremos severissimamente e enviaremos neste e no próximo mundo para as chamas da reprovação. Dizer que é “deus” quem está julgando, ou que é a própria pessoa que escolhe se afastar de deus, são apenas formas convolutas de projetar seu próprio julgamento em uma conveniente entidade externa “para não sujar as próprias mãos de sangue”. Daí um dos motivos mais importantes para se afirmar existência dessa imaginária entidade : lavar das mãos o sangue dos seus próprios julgamentos.

Aliás, a tal “abstenção do linchamento em todas as suas formas” é tudo o que a religião católica (e religiões em sua maior parte) não fazem. Em total constraste com seu discurso de “tolerância” e “paz”, sua prática cotidiana e rotineira é saírem de seu caminho para discursar, transbordando de reprovação e virulência, contra aqueles que ousam ir contra seus “valores” – na verdade uma coleção de regras dogmáticas consideravelmente arbitrárias e temporalmente mutáveis decretadas por Roma.


Que tal mandar as pessoas para o inferno por comerem
carne como demonstração de “tolerância”?

Então se a igreja católica tivesse a tal “boa vontade” de não sair julgando todo mundo da qual fala o Pedro, não se apressaria em mandar pessoas para o inferno por exemplo por suas práticas sexuais, ou por negarem a existência de deus. Ah, mas que ingenuidade a minha – não é a igreja católica que manda ninguém para o inferno, é deus. Mas vejam, regras como esta e muitas, muitas outras – assim como suas exceções – foram efetivamente e na prática promulgadas por Roma como “interpretações” do que seria teologicamente correto. Que conveniente! Posso julgar a todos e nem ao menos sou eu que estou julgando. Eu posso esfregar minhas mãos limpas de sangue e dizer “foi você quem escolheu se afastar de deus”.

Mas a parte mais incrível do argumento – sobre “abster-se de linchamento em todas as suas formas” – é que aparentemente ele não parece se aplicar quando quem está sendo julgado… é quem se arvora na pecaminosa e terrível prerrogativa de julgar os outros. O texto não só julga tais pessoas severamente, como ainda “explica” que qualquer discurso acusatório só pode mesmo ser motivado por auto-afirmação, ser obra do diabo (!), e que estas pessoas, ao contrário dos pecadores normais, que são apenas humanos, não merecem sequer o benefício da dúvida de estarem demonstrando “boa vontade” e são portanto justamente imerecedoras da “paz na terra”. Pois então cumpro a profecia do texto e dirijo a seu autor a acusação semelhante de se colocar, contra seus próprios argumentos, na posição de “anjo vingador” que sim, julga severissimamente aqueles que ousam julgar os outros.

Aliás, essa posição não é nem um pouco surpreendente, pois para a teologia católica, este é o verdadeiro e maior pecado, efetivamente o pecado original que colocou o homem em estado natural de eterna impureza. Não foi genocídio, não foi crueldade, não foi preguiça ou omissão. Não, não. Foi ousar comer do fruto da árvore do bem e do mal e ousar ter um julgamento próprio sobre o que é certo e errado. Foi ousar usar sua própria consciência para tomar decisões. O pecado original e mais grave de todos é o de demonstrar independência de julgamento ético ao invés de submissão subserviente e temerosa à vontade de “deus”, leia-se seus “representantes” na terra. Você pode ser um assassino torturador psicopata estuprador e mutilador de crianças que se 5 minutos antes de morrer declarar sinceramente sua submissão a deus, tudo estara bem e você ira para o céu. Mas se você for uma pessoa bondosa e caridosa e tolerante mas seguir seus próprios critérios e sua própria consciência para isso e morrer negando a existência de deus… irá queimar para sempre no inferno.

A religião dogmática (e a maioria absoluta é) alimenta-se de (e explora, e incentiva) várias fraquezas humanas, entre elas de uma distorção de caráter muito humana que é o desejo de ter as mãos limpas do sangue de julgar os outros, de ter a consciência limpa da terrível carga de decidir por si mesmo o é certo, o que é bom, o que é verdadeiro, de não querer assumir a responsabilidade pelo que jogadas fora todas as racionalizações, desculpas e explicações são suas próprias e inalienáveis escolhas, decisões e julgamentos. Então a religião institucionalizadamente dogmática não apenas tira essa carga de suas mãos como em troca exige explicitamente que você não use seu próprio julgamento. Ela exige nada mais nada menos que quando confrontado com um dilema entre o que sua consciência e melhor julgamento dizem serem certo e bom e o que as autoridades religiosas afirmam ser certo e bom, você deve jogar fora seu julgamento e submeter-se à ortodoxia. O resultado é todo tipo de aberração moral e cognitiva.


Uma amostra do cristalino pensamento
de cristãos fundamentalistas

Esse discurso de que “fazer uma acusação, mesmo que seja verdadeira” seria apenas uma demonstração de “falta de boa vontade” e expressão de uma “necessidade de auto-afirmação” vindo de alguém que está fazendo precisamente isso é no mínimo inconsistente. Mas isso se torna ainda pior e mais preocupante quando chega ao extremo de classificar a irreverência como “falta de boa vontade”. Como é que é? Isso me lembra que uma entre as minhas formas favoritas de definir um governo totalitário é assim : um governo se torna totalitário quando perde seu senso de humor. O próprio ato de criticar em si mesmo se torna então suspeito sinal de “falta de boa vontade”. Mesmo através de piadas, mesmo através de irreverência. Pois eu digo que sentir-se importante demais para ser alvo de irreverência, para ver suas características ridículas ou negativas apresentadas em forma destilada, isso sim é se levar a sério demais. Quando se falsifica o que alguém disse, quando se calunia alguém, quando nos agarramos a repetir qualquer afirmação absurda feita sobre quem queremos criticar, isso sim é falta de boa vontade. Mas irreverência? No sentido de recusar-se a deixar de questionar algo por ser supostamente tão sagrado que não pode ser questionado?  Ora, vejam a citação escolhida pelo Aurélio para ilustrar o significado desta palavra :

irreverência
[Do lat. irreverentia.]
Substantivo feminino.
“Desobedecendo e revoltando-se com uma irreverência heróica, funda [Lutero] a liberdade do pensamento” (Ramalho Ortigão, Figuras e Questões Literárias, I, p. 127).


Religião nos EUA e no mundo

Agora, se a tal “boa vontade” é um misto de verdadeira humildade com o desejo de ver o bem e pressupor o bem, a atitude da igreja católica demonstra extrema falta de boa vontade. Acreditar-se capaz de comunicação direta com deus, seu único legítimo representante no universo, e a única entidade capaz de não só interpretar a vontade divina para decidir o que é um ato “mau” como para intermediar o “perdão” por tais atos… isso não soa muito bom em termos de humildade! Então talvez a boa vontade esteja em pressupor o bem. Mas o fato é que a religião católica enxerga o mal em cada fresta e canto da existência. Ela é tão avessa a pressupor o bem que considera que todos os seres humanos desde a concepção já estão errados mesmo que absolutamente nada tenham feito. Então talvez ela seja boa em reconhecer o bem onde quer que esteja. Mas não; qualquer um que não prometa nominalmente subserviência a seus preconceitos ritualmente dogmatizados, mesmo que calhe de estar fazendo enorme bem, é automaticamente considerado tentado pelo demônio e pelo mal. Então por qualquer critério a igreja católica definitivamente não passa nos critérios apresentados para “boa vontade”.

Então são citados rapidamente os ateus. Ora, os ateus. Aqueles seres incapazes de transcendência que querem reduzir tudo a um componente antropológico. Ou será que querem? As descrições de ateus feitas por religiosos são com freqüência para criticar posições que a maioria dos ateus absolutamente não defende. Eu não “quero” reduzir tudo a um componente antropológico, e na verdade fico freqüentemente frustrado com esse componente vezes demais ir contra o que eu acho que seria certo e bom. Agora, negar a existência e a importância desse componente é simplesmente fugir da realidade.


Por que os ateus não calam a boca?


Theocracy Watch : Dominion Theology

Christian Reconstructionists

Termino com uma discussão do episódio da mulher adúltera, que eu concordo ilustra muito bem toda essa questão. Em primeiro lugar, não concordo que o argumento para não apedrejar a mulher adúltera tenha qualquer coisa a ver com o fato de ela ser inocente. Analisemos a passagem inteira :

Early in the morning he came again to the temple. All the people came to him, and he sat down and taught them.  The scribes and the Pharisees brought a woman who had been caught in adultery, and placing her in the midst they said to him, “Teacher, this woman has been caught in the act of adultery. Now in the Law Moses commanded us to stone such women. So what do you say?” This they said to test him, that they might have some charge to bring against him. Jesus bent down and wrote with his finger on the ground. And as they continued to ask him, he stood up and said to them, “Let him who is without sin among you be the first to throw a stone at her.” And once more he bent down and wrote on the ground. But when they heard it, they went away one by one, beginning with the older ones, and Jesus was left alone with the woman standing before him. Jesus stood up and said to her, “Woman, where are they? Has no one condemned you?” She said, “No one, Lord.” And Jesus said, Neither do I condemn you; go, and from now on sin no more.”

Ou seja, em nenhum momento é questionado que embora em posição essencialmente indefesa e vulnerável, a mulher de fato era culpada da acusação que lhe faziam, e inclusive Jesus a manda embora com a recomendacão de que “de agora em diante não peque mais”. Além disso, a mulher nem sequer tentou se justificar, ou demonstrou qualquer arrependimento. Portanto a mensagem é sim de tolerância, mas não como precaução contra falsas e equivocadas acusações, mas sim de tolerância para com quem de fato errou, e Jesus não exigiu dela promessas de retidão ou ortodoxia moral antes de não condená-la. E nem ao menos faz qualquer sermão exceto recomendar que não peque mais. Então se alguém teve boa vontade nessa história toda foi Jesus, que pressupôs a capacidade para o bem na mulher que não condenou apesar de ela ter de fato errado, que enxergou a capacidade para o bem na multidão que convenceu a não apedreja-la, e que no final foi humilde o suficiente para também não condená-la ou exigir demonstrações de subserviência apesar de estar numa posição de superioridade moral e de tê-la salvo da multidão. Já a multidão, apesar de ter sido instada com sucesso à tolerância, não demonstrou realmente boa vontade; apenas se sentiram vexados pela observação de Jesus que os convidava a examinar sua própria autoridade moral para julgá-la.

Agora, devemos daí concluir que se não somos perfeitos não temos autoridade para julgar ninguém, e que conversamente, se somos, temos autoridade para condenar a todos implacavelmente?

A segunda parte é respondida pela própria história e pela atitude de Jesus, acredito. Nenhuma quantidade de superioridade moral do mundo, verdadeira ou (muito mais provavelmente) suposta nos autoriza a sermos implacáveis, algo de que a igreja católica parece se esquecer completamente. Ele também não a condenou.

Já a primeira parte é precisamente o objeto do texto que comento. Se somos imperfeitos, estaremos então em errados em julgar os outros? Essa é uma pergunta complexa, mas como lindamente construído, desenvolvido e apocalipticocatarticamente resolvido em Dogville, olhar para si mesmo e dizer “eu não me orgulho de agir desse jeito mas que posso fazer, sou humano” é uma desculpa muito pobre. Combinar com aqueles ao nosso redor “eu não te julgarei e você também não me julga, abdiquemos todos entre nós de nossa consciência ética, sejamos todos cúmplices desde que estejamos entre nós ” não é nem a resolução sugerida pela histórica bíblica nem uma solução “tolerante” ou cheia de “boa vontade”, muito pelo contrário; na melhor das hipóteses ela supõe o mal não só como onipresente mas também insuperável. Agora, existe uma grande diferença desde não ser implacável e intolerante até abrir mão de ter uma consciência. Inclusive o filme vai mais longe e considera também a segunda parte, e conclui por apontar que acreditar-se tão superior aos outros que não se pode aplicar a eles os mesmos padrões éticos que aplicamos a nós mesmos é simples e pura arrogância.


The Question


The Answer

A Tristeza Do Homem Sublime

Tuesday, December 22nd, 2009


A Tristeza Do Homem Sublime

Alguns dias depois de eu publicar este texto aqui, eis que vejo um post do Pedro intitulado Duas canções para o “homem médio”, segundo ele “exercícios métricos para desanuviar” o clima de “Bolsa-Amor do Ministério da Saúde” produzido pelo meu texto. Por um lado eu acho absolutamente justo que o “homem médio” se sinta frustrado com um sistema no qual  a felicidade seja tão elusiva. Por outro, eu concordo com o Pedro que liberdade para buscar algo não é o mesmo que o estado ou a sociedade garantirem que você vai encontrar. E concordo adicionalmente que se ficamos chateados com as complexidades do comportamento dos outros, devemos antes de lhes atribuirmos toda a responsabilidade por nossas atribulações estarmos preparados para perceber o quão complexas são as nossas próprias necessidades. E precisamos estar, como em tudo o mais, dispostos a fazermos coisas que não queremos fazer para podermos obter resultados que de fato queremos. Isso se chama investimento, e ter autocontrole suficiente para fazê-lo, e para fazê-lo sem ficar fazendo cara feia e beiço é provavelmente umas das marcas mais distintivas de maturidade e equilíbrio emocional.


A Tristeza Do Homem Sublime
(versão alternativa)

Comento adicionalmente que ao tal “homem sublime” que se supõe “oprimido pela massa ignara” apenas como forma de responsabilizar a todos menos a si mesmos pelos seus problemas se opõe o “homem admitidamente pecador” que se supõe oprimido por sua insuperável e incontornável natureza torpe apenas como forma… de se eximir da responsabilidade pelas próprias escolhas. O fato de que não somos e não podemos ser perfeitos não é argumento para não buscarmos ser o melhor que pudermos, nem para eximir todo mundo de qualquer responsabilidade de pelo menos tentar ser bom. Dizer “é, eu sou mau mesmo, todos somos, quem disser que não é um impostor” é uma forma muito conveniente de se justificar por não buscar superar a própria ruindade. E se por um lado nem sempre tudo é “culpa do sistema”, por outro lado existem sim, situações nas quais o sistema é opressivo. Agora, mesmo quando isso é verdade, não precisa ser culpa de ninguém, e talvez seja em parte nossa. E mesmo quando baseada em insatisfações legítimas, de fato ficar paralisado nessa visão negativa do mundo no estilo “socorro, estou sendo oprimido” não nos leva muito longe. Então a alternativa a ficar só reclamando é tomar armas contra um mar de problemas, e em opondo-se a eles, sonhar derrotá-los. E não degenerar em ficar choramingando e com isso deixar de fazer o que pode de fato ser feito sobre o assunto. Quanto a isso tenho que concordar. E não me parece que meu texto sugira algo diferente disso. Muito pelo contrário. Mas se para certos paladares falta uma medida extra de desanuviação, sirvamos um pouco on the side.


Now we see the violence inherent in the system!


Homens e Mulheres

Saturday, December 19th, 2009

IMG_7279Banca de jornal politicamente incorreta no JFK

Toda vez que vou ao terminal 8 do JFK sinto vontade de escrever sobre uma banca de jornal que lá existe e que inocentemente divide suas revistas em “men’s interests” e “women’s interests”. Eis que finalmente o faço, e para colocar o leitor a par do que estou falando, convido a um exame mais detido da foto acima (clique aqui para uma versão em alta resolução).

Antes de qualquer elaboração crítica, tomada de posição ideológica, desconstrução sociológica ou análise semiótica, comecemos por simplesmente examinar tão objetivamente quanto possível o que ali está. Quais são os assuntos considerados “interesses de homem” e quais são os considerados “interesses de mulher”?

Em ordem de prioridade, interesses de homem, como percebidos pelo gerente da banca :

  • Mulher pelada pseudo-chique
  • Mulher pelada nao tão chique
  • Mais mulher pelada que nunca é demais
  • Praia
  • Futebol
  • Pescar
  • Ficar em forma e com saúde
  • Ficar em forma e musculoso. Tenha ótimo sexo esta noite.
  • Finanças
  • Ser preto
  • Guerra
  • Terrorismo
  • Finanças e Política Internacional (Brasil na capa!)
  • Crise econômica
  • Baseball
  • Reflexões sociológico-existenciais
  • Finanças e crise econômica
  • Educação superior
  • Finanças
  • Mais finanças
  • Ainda mais finanças
  • Reflexões sociológico-existenciais (de novo)
  • Carros caros
  • Ficar em forma
  • Carros esporte
  • Turismo
  • Ir pro meio do mato com uma mochila e um canivete
  • Golfe
  • Mais golfe
  • Carros inacreditáveis

Contraste-se com isso, em ordem de prioridade, interesses de mulher, como percebidos pelo gerente da banca :

  • Sapatos. Aparência. Onde comprar coisas com desconto.
  • Decoração e como preparar um jantar ou dar uma festa.
  • Receitas culinárias  e onde comprar coisas com desconto.
  • Moda.
  • “Saúde” (entre aspas porque, convenhamos, “como consertar um metabolismo quebrado?”)
  • Ficar em forma, emagrecer.
  • Saúde, emagrecer, emagrecer, emagrecer!
  • Emagrecer. Comida. Emagrecer. Comida.
  • Casar. Ser noiva. Vestido de noiva. Buquê de noiva. Noivas.
  • Fofocas. Meu casamento de sonhos.
  • Como cuidar da casa. Como compras coisas com desconto.
  • Ser preta.
  • Ser preta.
  • O que mulheres casadas felizes não devem fazer. Como cuidar da sua aparência seja qual for sua idade.
  • Fofocas sobre pessoas famosas.
  • Mais fofocas sobre pessoas famosas.
  • Ficar em forma, emagrecer (de novo).
  • Ainda mais fofocas sobre pessoas famosas.
  • Ainda mais fofocas sobre pessoas famosas que nunca é demais.
  • Aparência. Moda. “Sexo e amor”. Como parece mais sexy.
  • Sapatos. Bolsas. Moda. Aparência.
  • Bolsas baratas. Aparência. “Como mudar sua vida.”
  • Aparência. Como cuidar da sua beleza sem gastar dinheiro.
  • Como cuidas da sua pele. Como cuidar da sua aparência sem gastar dinheiro.  Como fazer seu cabelo parecer sexy.
  • Produtos de beleza. Cabelo.
  • Beleza. Ficar em forma.
  • Ficar em forma, emagrecer.
  • Aparência.
  • Ficar em forma. Emagrecer. Dieta para melhorar sua vida sexual.

Certo. Agora, vamos pensar sobre o que isso significa.

Para começar, eu gostaria de observar que com alta probabilidade o gerente da banca não tem qualquer intenção ou mesmo interesse em usar de sua classificação das revistas como instrumento de propaganda, lavagem cerebral ou opressão ideológica. Me parece bem mais razoável supor que quase – ou totalmente – ingenuamente ele buscava facilitar a homens e mulheres mais rapidamente encontrarem o que procuram. Então desliguemos a hipocrisia e os muxoxos afetando indignação e consideremos se tem algo de realmente incorreto com essa avaliação, ou se o que realmente nos incomoda – para quem essa foto incomoda – é essa de fato ser a realidade.

Sinceramente, quais as chances de um homem comprar uma Marie Claire? E quais as chances de uma mulher comprar uma Golf Digest?

Note-se, a disparidade não termina na seleção feita pelo gerente da banca. Os editores das revistas também sabem qual e seu público e selecionam o conteúdo de acordo. Então ao olharmos para essa cena o que realmente nos incomoda é o desconfortável abismo que existe entre os desejos, aspirações, sonhos e objetivos de homens e mulheres. Queríamos que isso fosse diferente, que não fosse assim, que pudéssemos olhar juntos na mesma direção, porque de certa forma queremos coisas um do outro. Queremos que nossos desejos sejam complementares ou pelo menos compatíveis. Mas ao mesmo tempo em que queremos coisas um do outro, as coisas que tentamos oferecer em troca não são as que o outro quer. É como entrar no açogue e tentar comprar um quilo de carne pagando com um saco de arruelas enferrujadas. E então o açogueiro responder que não tem qualquer interesse em arruelas enferrujadas e que aliás a carne não está à venda mas se você lhe der seu braço direito ele te fornecerá fotos de cachorros fofinhos. E então você dizer “Não, não, não tenho qualquer interesse em foto de cachorros fofinhos, me dê então aqueles pregos tortos ali no canto.” O diálogo é surreal e bizarro porque os interesses e necessidades de um são completamente alienígenas para o outro. As coisas que o outro quer de nós, não é que não esteja em nosso poder oferecer, mas nos confunde que o outro dê tanto importância ao que consideramos banal, e diminuta importância ao que consideramos essencial.

Entre várias observações que eu poderia fazer sobre as capas das revistas, note-se o seguinte padrão nos interesses listados acima. As mulheres fazem um esforço enorme para serem desejadas, para parecerem sexy, para cuidarem de sua aparência, para serem socialmente aptas, para se casarem, para basicamente fazerem tudo que possivelmente terá como resultado previsível… ter um homem, provavelmente vários, querendo muito ter sexo com elas. Por outro lado e paradoxalmente, não demonstram nem remotamente a mesma quantidade de disposição a (ou evidência de) reciprocar esse interesse e desejo. Então elas gastam um esforço enorme e grande parte de seu tempo, dinheiro e preocupação em serem atraentes, e em grande parte e primordialmente através de sua aparência… quando nem sequer está listado entre seus interesses e considerações prioritárias efetivamente ter sexo. Por que alguém faria isso tudo, se não for para efetivamente ter sexo? O leitor pode tirar suas próprias conclusões.

Agora, antes que me acusem de ser sexista, vejamos o lado masculino. Os homens, por outro lado, querem gastar quase zero de tempo e esforço em cuidar de sua aparência, em serem socialmente aptos, em serem atraentes, em ficar tentando entender o que poderia tornar sua imagem mais sexy. E ao mesmo tempo, seu primeiro e mais prioritário interesse é ter acesso a sexo. Agora me digam, como e em que termos pretendem ter acesso a sexo com essa atitude? O leitor pode tirar suas próprias conclusões.

Então em resumo, na capa de uma revista feminina a manchete é algo do tipo “como parecer sexy”, isto é, como fazer com que um homem queira ter sexo com você (mas de fato ter sexo é uma consideração decididamente secundária, e possivelmente nem sequer o ponto ou objetivo). Enquanto isso, na capa de uma revista masculina a manchete é algo (literalmente) do tipo “como ter sexo hoje, esta noite”, isto é, como fazer para de fato ter sexo com uma mulher (mas ela sequer estar atraída por você é uma consideração decididamente secundária, e possivelmente nem sequer o ponto ou objetivo). A diferença de paradigma é brutal. Mas em comum há que ambas as estratégias parecem absolutamente alucinadas, incompreensíveis e revoltantemente autocentradas.

Aliás, nas capas de revistas “para mulheres” há… mulheres. E nas capas de revistas para homens há… homens. Quer dizer, com a notável exceção das revistas eróticas para homens, as quais são tão socialmente inaceitáveis que precisam ser escondidas… embora figurem antes de todos os outros interesses. Então é assim, as mulheres não têm nenhum interesse no que os homens pensam ou em fazê-los felizes… mas querem ser desejadas por eles. E os homens não têm nenhum interesse no que as mulheres pensam ou em fazê-las felizes… mas querem ter acesso sexual a elas. Note-se, a maior parte dos artigos e manchetes, para ambos os sexos, não são do tipo “como posso fazer uma mulher feliz” ou  “como posso fazer um homem feliz” e sim universalmente “como faço para conseguir o que eu quero”. Então embora ambos os gêneros tendam a ter em suas mãos as ferramentas para atender às necessidades biológicas, psicológicas, emocionais e afetivas um do outro, esse enorme potencial de satisfação mútua permanece em grande parte inexplorado, fechado a cadeado por uma atitude egoísta, perdedora e miópica de “apenas as minhas necessidade importam”.

Evidentemente estou aqui falando de tendências e médias, e pessoas reais desviam disso em diversos graus.

Mas como tendência, o homem médio provê serviços afetivos absolutamente medíocres às suas parceiras. Age de forma quase autista e não faz qualquer esboço de tentativa de aprender como agradá-las emocionalmente, ou mesmo de entender quais são as suas necessidades; em geral, inclusive, legítimas e profundas necessidades psicológicas de suas parceiras são tratadas como inconvenientes a serem tanto quanto possível contornados ou ignorados.

Da mesma forma, a mulher média provê serviços sexuais absolutamente medíocres aos seus parceiros. Não faz qualquer esboço de tentativa de aprender como agradá-lo na cama, ou mesmo de entender quais são as suas necessidades; em geral, inclusive, legítimas e profundas necessidades psicológicas de seus parceiros são tratadas como inconvenientes a serem tanto quanto possível contornados ou ignorados.

Triste forma dos gêneros se relacionarem, um com a chave da felicidade do outro na mão mas incapaz de libertá-la, enquanto tenta agressivamente tomá-la das mãos do outro.

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Um comentário adicional que eu gostaria de fazer é como a mulher média não ter a menor noção, não tem a mais remota idéia, não tem a sombra de um vestígio de um vapor de um sopro de uma pista de quão diferente é sua experiência social da de um homem.

A mulher média, bastando para isso não ser grotescamente repulsiva, rotineiramente desperta o interesse sexual / emocional /afetivo / psicológico de uma boa fração dos homens que encontra. Se for um pouco acima da média, de quase todos. Mas para despertar de pelo menos alguns, na maior parte dos casos, basta exclusivamente ser mulher. Basta ser mulher e entrar num ambiente, e pelo menos alguns homens estarão instantaneamente receptivos e interessados. Na verdade não precisa sequer entrar num ambiente – basta ter nome de mulher e já passa a usufruir imediatamente de suas arquetípicas prerrogativas femininas ao interagir com homens, mesmo que virtualmente. A mulher média conhece – mesmo que não se dê conta do quanto – o sentimento de ser rotineiramentem, diariamente, gratuitamente desejada. Talvez ela não tenha na maioria dos casos qualquer interesse recíproco, e talvez em casos acima da média isso se torne até mesmo inconveniente. Mas o fato é que a mulher média vive num constante ruído de fundo de ser desejada como mulher. Simplesmente está lá, e é para ela uma parte tão integral do universo que nem se dá mais atenção, ou nunca chegou sequer a ser explicitamente percebido como algo que poderia não estar lá.

Já para um homem médio, ser desejado é uma experiência longe de cotidiana, trivial ou descartável. Pouquíssimos são os homens que ocupam a posição de serem automaticamente, gratuitamente, diariamente desejados ao interagirem socialmente. A mulher média provavelmente ficaria muito chocada e surpresa se pudesse ser colocada no papel social de um homem e então experimentar diretamente quão radicalmente diversa é a posição masculina. A quantidade de frustração sexual / social / afetiva que o homem médio tem que aprender a administrar é muitíssimo além do que a quase totalidade das mulheres remotamente pode imaginar.

O efeito que essa disparidade de experiências tem sobre a psique de ambos os sexos, assim como sobre a interação entre eles, é imenso.

Cripto-totalitarismo

Wednesday, December 16th, 2009

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Placa de trânsito nos EUA
Segunda feira, 6 da tarde, quero descarregar meu caminhão.
Posso estacionar aqui?

cript(o)-
[Do grego kryptós]
1.=’escondido’, ‘oculto’, ‘obscuro’.

Quando somos oprimidos por um sistema que nos impõe regras cristalinamente draconicanas como “está imposto toque de recolher, quem for encontrado fora de sua residência após as 6 da tarde será sumariamente executado”, fica claro (1) que algo opressivo está ocorrendo para começar e (2) como articular de que opressão gostaríamos de nos libertar.

As pessoas porém não gostam muito de serem oprimidas, e tendem a reagir. Tudo bem, sistemas totalitários são baseados na força e não precisam realmente de justificativas, mas mesmo que estejamos no comando de um sistema convictamente e desavergonhadamente totalitário, existem formas mais fáceis e mais difíceis de fazer as coisas, e bem, nem que seja por motivos puramente pragmáticos, é em geral conveniente fazer da forma mais fácil. Afinal de contas, mesmo que não haja escrúpulos em usar de coerção, continua custando recursos. Enfim, balas e soldados custam dinheiro. E se não estamos num sistema desavergonhadamente totalitário, por mais fortes motivos ainda precisamos de usar subterfúgios quando queremos assim mesmo adotar políticas opressivas.

Assim sendo, uma das providências mais fundamentais que todos os sistemas com tendências totalitárias buscam tomar é transformar a percepção da opressão de forma que ela passe despercebida ou pareça justificada. Isso pode ocorrer de muitas formas, desde sugestões sutis e subliminares, até a mais descarada manipulação da linguagem, como repetir ad nauseam slogans do tipo “Liberdade é Servidão” ou resolver chamar empregos sem carteira assinada de trabalho escravo. Outro exemplo de como pode ocorrer é inundando o imaginário popular com a noção de que os atos opressivos são na verdade absolutamente essenciais e inevitáveis para prevenir alguma grande catástrofe, repelir algum inimigo perigosíssimo, ou atingir algum objetivo promovido como tão fantasticamente belo e auto-evidentemente desejável que o próprio ato que questionar os meios usados para atingi-lo é suspeito. Uma outra forma, particularmente eficaz e cruel, é promover a introjeção, pelo grupo oprimido, da sua identidade como inferior, e merecedor de opressão. Os oprimidos, carregados de culpa e eviscerados de sua auto-estima, passam a acreditar que são mesmo uma droga e assim docilmente ou mesmo avidamente aceitam a opressão, chegando em certos casos mesmo a idolatrar e idealizar seus opressores.

Mas existem outras formas de implementar políticas extremamente opressivas que são especialmente úteis em regimes políticos nos quais não se pode ser escancaradamente totalitário. Essas se baseiam em alterar a percepção do ato opressivo não através de propaganda ou atuando no campo da retórica como nos casos acima, mas através de uma reformulação do ato em si mesmo, dando a ele uma forma oculta e críptica. A estas formas chamarei de cripto-totalitarismo. Elas consistem em promover políticas que têm exatamente (ou até piores) efeitos que a opressão direta, mas que são sentidos de forma indireta e convoluta, e que mesmo quando se percebe que algum tipo de opressão está ocorrendo, pode não ser imediatamente óbvio a quem responsabilizar ou o que precisa ser mudado. Adicionalmente, pela sua própria natureza, tal estratégia minimiza a necessidade de dispender esforços num discurso que mascare a natureza opressiva do ato. Pelo contrário, tal discurso em geral é até contraproducente posto que o truque de prestidigitação consiste precisamente em a opressão ocorrer de uma forma tão obscura que passe desapercebida; melhor não chamar a atenção para que o ato sequer possa ser interpretado como opressivo. Tentar justificá-lo somente levantará a questão de sequer haver algo que precise ser justificado.

Uma forma de cripto-totalitarismo é tomar medidas cujas conseqüências lógicas inevitáveis são opressivas mas não são imediatamente óbvias.

Um exemplo clássico é o seguinte. Todo governo historicamente relevante até hoje se financiou direta ou indiretamente através do confisco de recursos dos seus governados / súditos sob a forma de impostos. Suponhamos que um governo supostamente democrático / representativo queira confiscar uma porção ainda maior dos recursos da população sob sua influência / autoridade, mas que a receptividade a isso seja (compreensivelmente) baixa ou inexistente. Suponhamos que mesmo que o tal governo pudesse aprovar uma medida desse tipo, não deseje passar pelo desgaste político e de popularidade em fazê-lo. O que historicamente muitos governos fazem nesse caso? Ora, é fácil. Imprimem mais dinheiro. Note, para que isso sequer seja possível, é necessário já termos chegado num estágio de sofisticação (ou diriam alguns desvirtuação) da economia tal que 1) as transações econômicas não sejam mais realizadas utilizando diretamente commodities de valor mais ou menos universal e 2) a emissão de dinheiro nem sequer em tese esteja limitada, lastreada ou associada a algum tipo de recurso ou realidade tangível. Satisfeitos esses requisitos, e estando o governo diretamente no controle da emissão de moeda corrente, ele pode então financiar o próprio déficit literalmente imprimindo mais dinheiro. Porém, como qualquer um com noções básicas de economia já teve oportunidade de apreciar, isso inevitavelmente resulta na depreciação do valor do dinheiro, significando que na prática este é simplesmente um método convoluto… de o governo transferir para si uma fração de todos os recursos que estiverem investidos (concreta ou virtualmente) naquela moeda. Hoje em dia  esse tipo de situação é tão universalmente reconhecida como problemática que é praticamente um consenso ser essencial retirar do governo a prerrogativa de emitir quantidades ilimitadas de moeda correnta (e para isso existem diversas soluções, uma delas sendo a criação de um banco central “independente”). Note-se que o confisco realizado pela emissão descontrolada de moeda é tão real quanto digamos um aumento de imposto sobre a renda; apenas ele é mais sutil, e também mais perverso na medida em que ocorre sem a possibilidade de resistência.

Esse método porém é tão desgastado que não pode mais realmente ser chamado de cripto-totalitarismo, dado não ser mais de forma alguma obscuro. Mas ele ilustra o princípio : tomar medidas nas quais aparentemente nenhum direito está sendo cassado, nada está sendo confiscado, ninguém está sendo roubado… e no entanto na prática é exatamente isso que está acontecendo.

Outro exemplo clássico, mas que por algum motivo até hoje não tem suas conseqüências tão universalmente enxergadas por todos quanto o prévio (embora já seja claramente discutido a nível por exemplo da WTO), é a concessão de “subsídios” para “estimular” ou “proteger” certas atividades na economia. Novamente, a princípio parece que se está “dando” algo, então como isso pode ser opressivo? Ora, o governo não tem uma máquina de gerar recursos magicamente do nada, então todo ato – e gasto – do governo é na verdade um uso do poder coercitivo para nos forçar a fazer algo. Por vezes isso pode ser justificado; mas nunca devemos nos esquecer de que é o que está acontecendo. Então quando o governo subsidia, digamos, os plantadores de cana-de-açúcar através de descontos nos impostos, e então subseqüentemente a produção de álcool, e finalmente a venda de álcool combustível, talvez a maior parte das pessoas não sinta que está sendo oprimida ou coagida a fazer nada. Agora imagine se ao invés disso o governo dissesse : quem comprar carro a gasolina receberá uma multa toda vez que encher o tanque. E aliás, quando não encher também. A única forma de resgatar parte do valor dessa multa é comprando álcool. Aí já não pareceria tão lindo, né? Só que isso é precisamente o que está acontecendo, apenas de uma forma convoluta. Subsídios são uma forma de tortuosa de multar quem não consumir certos produtos ou serviços.

Mas essa é apenas uma das modalidades de cripto-totalitarismo. Uma outra via muito eficaz consiste em escrever leis ininteligíveis, obscuras e confusas, criar infinitos níveis administrativos e jurisdições, e cultivar tal profusão de regras que no final das contas ninguém sabe exatamente o que é prescrito e mandado pela autoridade vigente. Isso tem múltiplas conseqüências perversas. Uma das piores é provavelmente permitir – em geral intencionalmente! – uma inaceitável elasticidade no uso de arbítrio da autoridade vigente sobre como aplicar a lei. Paralemente, mesmo quando não há abuso desse arbítrio, outra conseqüência é criar – novamente, em geral intencionalmente! – uma constante insegurança do cidadão comum quanto a estar numa posição legalmente segura e sustentável. Isso é extremamente opressivo, posto que dessa incógnita vulnerabilidade evidentemente deriva uma onipresente e contínua hesitação em criticar ou questionar o governo ou as autoridades vigentes. De forma geral, não haver regras absolutamente claras, públicas e suficientemente simples sobre o que é ou não permitido é profundamente danoso às instituições.

Uma outra forma de cripto-totalitarismo que complementa as regras do jogo serem incompreensíveis é criar leis e regras claramente fora da realidade que teoricamente se aplicam a todos, mas que proíbem ou penalizam atividades tão amplamente disseminadas, exercidas e aceitas pela sociedade em geral que é ridiculo esperar que sejam seguidas.  Considere leis como “é ilegal disponibilizar música com copyright na internet sob a pena de pagar cem mil dólares de indenização” ou “é proibido dirigir a mais de 100 km por hora nesta auto-estrada com 1000km de comprimento sob pena de ter sua carteira de motorista confiscada” ou “e proibido fumar certas plantas sob pena de ir pra cadeia”. Claro que é completamente impossível, absurdo e indesejável de fato aplicar e fazer universalmente valerem leis como essas. E olhe que eu não estou inventando; são leis reais. Existem, e são universalmente desrespeitadas, e nada acontece, e ainda bem que nada acontece, ou teríamos que mandar literalmente todo mundo pra cadeia. E antes que alguém diga que outras leis mais razoáveis também são desrespeitadas, esse desrespeito está longe de ser universal ou aceito. Não seria absurdo nem impensável mandar todos os homicidas ou estupradores para a cadeia. Por outro lado seria totalmente inacreditável mandar para a cadeia todos aqueles que fumam maconha. Então coloco aqui outro princípio básico : assim como no caso das leis ininteligíveis, leis cujo destino óbvio é serem universalmente desrespeitadas são profundamente danosas às instituições. São danosas porque por um lado criam uma ambigüidade sobre a legitimidade das instituições, mas também porque novamente, criam – não raro de propósito – oportunidades para exercício inaceitavelmente elástico de arbítrio da autoridade vigente. Se estamos todos acima do limite de velocidade, a polícia pode em princípio parar qualquer carro a qualquer momento. E multá-lo. Mesmo que o motivo real seja não ter ido com a sua cara. Postulo aqui que é indesejável que o estado tenha o poder de fato de multá-lo por não ir com a sua cara. Se somos todos criminosos em potencial, quem é que vai ser besta de criticar o governo?

Concluo observando que uma das várias definições interessantes de totalitarismo é a seguinte : um estado totalitário é aquele no qual tudo que não é obrigatório é proibido. Quando um estado está tentando ser totalitário mas por diversos freios sociais e politicos não pode abertamente sê-lo, ele freqüentemente usa de cripto-totalitarismo para subrepticiamente criar tanto quanto possivel essa situação de fato mesmo que não de direito. Existe algo profundamente errado acontecendo quando um cidadão que quer obedecer a lei não tem certeza de se está conseguindo. Existe algo profundamente errado quando não temos certeza do que é proibido e do que é permitido. Existe algo profundamente errado quando passamos a hesitar em fazer qualquer coisa que não seja obrigatória por medo de que ela seja proibida.

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Clique aqui para ver a versão deste texto publicada no Ordem Livre.

Libertarianismo Zen

Tuesday, December 15th, 2009

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Fluxograma para decidir quando mandar alguém pra cadeia.

Estava eu pensando sobre o fluxograma acima (encontrado aqui) e minhas reflexões foram na seguinte direção : o que o brasileiro está tentando com todas as suas forças fazer, em todas as circunstâncias e sobre todos os assuntos, é chegar no “então deixa pra lá”.

No caso acima, por exemplo, me parece que o sujeito decidinte se vê na caixa “houve uma agressão” e então instantaneamente surge a questão em sua mente “qual o caminho mais curto para eu poder deixar isso pra lá”? Se a forma mais simples e rápida de eventualmente chegar no “ok, agora posso esquecer o assunto” for passar pelo “cadeia nele”, então cadeia nele… e agora posso deixar isso pra lá.

Note-se que o sujeito ser culpado ou inocente, a noção de certo ou errado, a melhora da sociedade, princípios filosóficos do significado da existência, tudo isso nem sequer entra na equação. O princípio máximo é : qual o curso de ação que mais rapidamente vai fazer com que parem de me encher o saco?

Isso é algo estereotipicamente brasileiro, e provavemente um dos elementos fundadores da nossa cultura e da nossa identidade. Não que não haja racismo, ou classismo, ou questões sociais, ou pensamentos sobre moralidade, ética, e transcendência. Ou grandes objetivos a serem atingidos no mundo das idéias abstratas. Ah, mas concretamente agir com base nisso é muito exaustivo. Não sejamos chatos. Que tal simplesmente deixar pra lá?

Aliás, quando as pessoas por aqui nos EUA começam a me perguntar sobre o Brasil, eu freqüentemente respondo que se eu tivesse que citar uma característica que mais resume a personalidade do brasileiro é não levar absolutamente nada a sério demais. Ou mesmo muito a sério. Ou mesmo a sério.

Claro, existem exceções, cada pessoa é diferente, etc, mas como povo e como sociedade vai mesmo nessa direção.

Isso tem vantagens e desvantagens.

No caso considerado acima, por exemplo, o resultado é o seguinte. Nos EUA, são assassinadas anualmente aproximadamente 16000 pessoas por ano. Aproximadamente 60% desses assassinatos são “solucionados” de alguma forma, por exemplo com a prisão do assassino. (Note-se que já de saída isso nos leva a uma reflexão sobre quão frágil é a ordem social e quanto ela depende de as pessoas voluntariamente não agirem psicopaticamente se mesmo nos EUA a chance de matar alguém e não acontecer rigorosamente nada com você é da ordem de 40%.) Já no Brasil, são assassinadas aproximadamente… er, 50000 pessoas por ano. São mais de 500 mil pessoas assassinadas de 1996 a 2008. (Aliás, isso também nos leva a uma reflexão sobre quão fora de controle está a situação de segurança no Brasil. Como comparação, durante toda a GUERRA do Vietnam, que durou de 1959 a 1975, na qual havia vietcongs com fuzis e metralhadoras atirando nos americanos… morreram 60 mil soldados americanos.) Mas voltemos ao tópico presente : que se faz sobre isso? Quantos desses crimes terminam com alguém preso, ou pelo menos com algum tipo de resolução que não seja… dar de ombros? Em São Paulo, provavelmente uma das menos brasileiras localidades em nosso país, a polícia se esforcou, se esforçou, e conseguiu nos últimos 10 anos aumentar o índice de solução de homicídios para 48%. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, provavelmente um dos locais mais estereotipicamente brasileiros do mundo a polícia resolve… 4% dos casos. Er, quatro por cento? Deixa pra lá, né?

Mas antes que nos apressemos em crucificar incondicionalmente essa característica do brasileiro, observemos : as conseqüências dessa atitude têm também o seu reverso. Em termos de conflitos armados abertos, por exemplo, temos um dos currículos menos sangrentos da história do mundo, e mesmo quando fomos governados por regime militar matamos num período de 20 anos o que a polícia americana, num estado democrático, em tempos de paz, mata em um ano!

Inclusive, voltemos um pouco no tempo. Nosso país ficou independente de seu país colonizador sem qualquer guerra com tudo sendo resolvido em família. Os escravos foram libertados sem que isso tenha sido o resultado de qualquer conflito armado. Depois a república foi proclamada novamente sem que um único tiro fosse disparado.  Etc, etc. Até mesmo o governo militar retirou-se sem qualquer insurreição e simplesmente passou o poder adiante para os civis. Compare-se com eventos similares na história de quase qualquer outro país. Isso quer dizer que não temos epiódios sangrentos em nossa história? Não, até temos, como a guerra do Paraguai, na qual aparentemente a maior causa de mortalidade foi cólera. Mas nunca tivemos nenhuma grande guerra civil, e nossas revoluções, tanto as bem quanto mal sucedidas, em geral envolvem uma meia dúzia de pessoas realmente fazendo alguma coisa.

E não para por aí; no Brasil é possível em geral violar repetidamente e ostensivamente todo tipo de leis e as regras sem que nada realmente ocorra. Por um lado é mais humano, e de uma forma tortuosa cria mais autonomia de decisão individual. Por outro lado, o oposto também vale – se alguém numa posição de autoridade resolver implicar com você, as leis e regras não servirão para protegê-lo, e não adianta argumentar que é inconstitucional ou ilegal ou completamente arbitrário porque farão assim mesmo. E os outros na maior parte dos casos vão simplesmente deixar pra lá.

Então em terra brasilis somos todos meio Zen, acidentalmente semi-libertários, e involuntariamente tolerantes. Mas não exatamente por princípio ou com qualquer coerência, e sim muito mais porque seria muito exaustivo e chato tomar uma atitude. Note-se, não é nem exatamente só uma questão de preguiça; é algo mais profundo. É mais um tipo de ennui tropical com a idéia de fazer de fato alguma coisa sobre qualquer coisa. Daí não é que o governo por vezes não esteja até tentando ser totalitário, seja no caso de uma ditadura de pseudo-direita, seja no caso do criptocomunismo lulático. Mas em ambos os casos acaba prevalecendo o sentimento geral de que bom mesmo é deixar pra lá.

Brasil, Uma Nação À Procura De Um Destino

Saturday, December 12th, 2009

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O Brasil na capa da Convenience Store News!

Estava eu fazendo uma visita à loja de conveniência na esquina da minha casa quando notei entre as revistas à venda uma com o Cristo Redentor e uma bandeira do Brasil na capa. Bem, eu tive que ir verificar do que se tratava, e era uma inesperada revista chamada “Convenience Store News” com um artigo de capa sobre… o Brasil!

A manchete era sobre como a economia brasileira está com todas as cartas na mão para passar por um período de grande crescimento e finalmente transicionar de economia emergente a economia de verdade no cenário mundial. Porém, logo complementa que isso pode ser impedido por uma situação de corrupção, socialismo, impostos e políticas ambientais fora de controle. Eu perguntei ao gerente da loja se a revista estava à venda (afinal nem sequer havia preço na capa) e ele disse que a revista na verdade era dele e estava junto com as outras por engano, mas que ele já havia lido e que eu podia ficar com ela se quisesse. Eu fiquei. Examinar o artigo, de autoria do editor da revista, que aproveitou uma visita ao Brasil para escrever sobre a situação do mercado nacional para lojas de conveniência e brevemente sobre o país em geral, acabou me levando a certas reflexões. Uma versão pode ser encontrada aqui.

Vejam o que o editor da revista encontrou para gostar sobre o Brasil :

Brasil na Convenience Store News, Likes

Pois então, o mais importante sobre o Brasil, quinta maior área do mundo, quinta maior população do mundo, localização de seis entre as cem maiores metrópoles do mundo é… praia, guaraná, e caipirinha. Sério. Brasil, eterno país do futuro, impávido colosso deitado eternamente em berço esplêndido, é a hora de mostrar tua cara. Ou será que essa *é* a nossa cara? A noção que o americano médio tem do Brasil é um montão de bundas cercadas de bandidos por todos os lados. Não é surpreendente. Aqui em New Jersey, metade dos alunos de pós-gradução do departamento de ciência da computação de todas as melhores universidades de pesquisa é… indiano ou chinês. Mesmo os chineses que não são suficientemente, digamos, sofisticados para ingressar num programa de pós-graduação vêm pros EUA e aqui abrem seus próprios negócios, como as estereotípicas lavanderias. Mas e os brasileiros? Cadê? Bem, majoritariamente servindo de… peões. Ou empregadas domésticas. Ou nos casos mais bem sucedidos garotas de programa. Ou meia dúzia de modelos famosas. Como isso foi acontecer?

O Brasil está muito timidamente representado nos programas de pós-graduação americanos, ao contrário das outras nações emergentes, que estão maciçamente, abundantemente, ostensivamente presentes. Em parte isso é por causa das políticas alucinadas e xenofóbicas do governo federal brasileiro que tomado de nacionalismo ufanista delirante crescentemente reza pela cartilha de que estudar numa universidade americana é uma frescura desnecessária dada a existência de cursos “equivalentes” em território nacional. Encaram educação superior como uma “commodity” comparável a minério de ferro ou soja; tudo igual e intercambiável. E quem mesmo assim teimosa e antipatrioticamente insiste em consumir o produto estrangeiro deve ser miopicamente forçado a todo custo a depois voltar para unir-se aos doutores que fazem concurso para gari. Agora me diga : quais países conseguiram formar uma elite intelectual e podem agora exibir universidades de pesquisa reconhecidas entre as melhores do mundo… e qual país continua patinando na irrelevância acadêmica?

O que nos leva à questão de que muito mais relevante que a política do ministério da educação é o fato de que o intelectual sério brasileiro, do qual desesperadamente precisamos, não tem fora de posições criadas artificialmente lugar em nossa sociedade, e muitas vezes encontra no exílio a única forma de obter reconhecimento do seu valor. Não que exista qualquer risco de um brasileiro ser estereotipicamente identificado como intelectual. Não, não. Carnaval, futebol, jiu-jitsu, capoeira, são essas as produções culturais brasileiras reconhecidas no exterior. Ah, claro, e bossa-nova, mas dessa é preciso explicar aos americanos que os próprios brasileiros há muito não gostam mais. Infelizmente não é uma caricatura; é uma percepção perfeitamente legítima do que de fato gera interesse. Pensar não está entre as atividades mais prestigiadas na terra em que se plantando tudo dá. A noção mais ou menos dominante é de que pensar não serve para nada. É para isso que se quer que alguém pensante volte? Agora, como é que isso foi acontecer?

A questão é que num ambiente em que as regras mudam o tempo todo de forma imprevisível e ininteligível, em que estratégias de longo prazo são impossíveis, em que recompensas e punições artificias importam infinitamente mais do que produtividade, eficiência ou organização, em que a atividade empresarial é tratada pela lei como excentricidade de rico, em que um diploma de engenheiro serve para passar em concursos e não para entender como a realidade funciona… bem, num contexto como esse então realmente pensar não serve para nada. Não adianta entender qual a forma mais segura, barata, rápida e eficiente de construir uma ponte se o governo for dizer que daquele jeito não pode e de qualquer forma quem vai construir é o meu sobrinho.

Os burocratas olham para as deficiências da produção acadêmica brasileira e após décadas continuam apegados a estratégias que a essa altura já sabemos empiricamente que não funcionam. Um dos erros mais essenciais é tentar consertar a situação olhando apenas para o próprio sistema acadêmico. Então se acha que tudo será resolvido dando mais bolsas, construindo mais universidades, buscando maximizar o número de publicações, aumentando o número de pessoas com diplomas de pós-graduação. Só que tudo isso só vai criar doutores varrendo a rua e dirigindo táxis se não houver quem os empregue fora da academia.

Agora, é claro que precisamos de doutores para ter universidades de pesquisa. Mas se o único emprego possível para doutores for dar aula numa universidade, uma parte substancial das pessoas qualificadas para serem doutores – precisamente as mais empreendedoras – não vão querer enterrar sua vida nisso. E além disso todo esse “conhecimento” acadêmico não estará sendo usado para nada – o que só tornará ainda mais frustrante a carreira acadêmica para aqueles que realmente têm vocação para isso. É preciso ver que as melhores univesidades de pesquisa do mundo existem num contexto, e não à margem da sociedade em que se inserem. Elas estão cercadas de empresas de alta tecnologia que empregam engenheiros – e mestres, e doutores  – não para ficarem dando aulas mas para de fato usarem seus conhecimentos. É esse o ambiente que atrai as melhores mentes do mundo, aquelas que querem de fato desvendar os mistérios do universo e não apenas produzirem artigos para impressionar uma agência de financiamento do governo. O próprio título de mestre nos EUA é em geral considerado profissionalizante – você o obtém para voltar ao mercado, não para ficar na academia. É no Brasil que existe a noção de que a única função de obter um título de mestre é basicamente seguir carreira acadêmica. Quem quer isso nos EUA vai fazer logo um doutorado. As ultra-melhores universidade de pesquisa nos EUA muitas vezes sequer oferecem programas de mestrado. Agora, que mercado de trabalho existe no Brasil para pessoas com mestrado em física, ou química, ou matemática? Por que alguém faria isso no Brasil senão para passar o resto da vida… repetindo para outros o que aprendeu, ao invés de USAR este conhecimento?

Ao prosseguirmos achando que vamos resolver tudo formando ainda mais e mais doutores sem eles terem qualquer perspectiva profissional real, conseguimos não só não ter mais empresas de alta tecnologia, como no processo ajudamos a escangalhar também o sistema acadêmico. Mas o que fazer então? Bem, como em geral, a primeira e mais importante providência que o governo pode tomar é a de NÃO ATRAPALHAR, e não se meter. Infelizmente esta é uma noção quase alienígena ao governo brasileiro.

O governo brasileiro precisa deixar as pessoas em paz para se associarem livremente para fundar empresas. Precisa parar de regular tudo e de criar encargos que incidem desde o primeiro momento quer haja lucro ou não. Quantas pessoas teriam um blog se fosse preciso ter uma licença do governo, se fosse preciso seguir um manual de regras bizantino sobre o conteúdo, e fosse preciso fazer relatórios mensais e ter um diploma de blogueiro? Aliás, o governo brasileiro precisa também se libertar do ranço corporativista suicida de querer exigir diplomas para o exercício das mais absurdas profissões. E precisa tornar claras e simples as obrigações fiscais das empresas. Etc, etc, etc…

O que nos leva de volta ao artigo original que encontrei na revista na loja de conveniência. Vejamos o que o editor da revista encontrou para *não* gostar sobre o Brasil :

Brasil na Convenience Store News, Dislikes

Realmente, tem coisas que a gente só percebe  plenamente o quão opressivas e absurdas são quando elas são removidas. Os outros pontos listados são muito relevantes e até haveria o que dizer sobre eles, mas  o que me bateu mais forte foi a situação de segurança no Brasil. Eu me lembro quando me mudei do Rio para Nova York e meu primeiro e mais intenso sentimento ao andar nas ruas foi de respirar aliviado e diria eu, até mesmo surpreso pelo grau em que não era mais necessário ficar o tempo todo olhando por cima do ombro para ver se tinha alguém vindo me roubar. Pessoas usam laptop sentadas no parque, prédios não são cercados de grades, é possível andar na rua às 3 da manhã. A situação de criminalidade e de generalizada exceção à normalidade institucional que prevalece no Rio de Janeiro e em várias outras grandes cidades brasileiras é completamente anômala. Mais uma vez, que incentivo existe para pensar e arriscar empreender se servir de avião para distribuir cocaína é muito mais simples, lucrativo e seguro? Que possibilidade existe de planejar se não existem regras?

Enfim, o artigo que motivou este texto é tão interessante pelo que é quanto pelo que ele não é. O próprio fato de ele existir é interessante. Alguém escreveria um artigo como esse sobre a Coréia do Sul, por exemplo? Dizendo que ela está “à beira de um grande salto” e que há incerteza se ela o dará? Não, ela já o fez! Agora vejam, no ranking mundial, a Coréia do Sul é por volta da décima quinta em tamanho, enquanto o Brasil é por volta da décima. Só que a área do Brasil é de oito milhões e meio de quilômetros quadrados, enquanto que a da Coréia do Sul é de… er, cem mil. Como isso é possivel? E note-se, a Coréia evoluiu rapidamente para essa posição, basicamente entre os anos 60 e 80, transmutando-se de um país fundamentalmente inexpressivo, repetidamente ocupado por potências estrangeiras, e dividido por guerras, para uma das maiores economias do mundo.

Agora, enquanto a Coréia se ocupava em saltar do terceiro para o primeiro mundo, o Brasil estava sendo governado pelo governo militar que com o motivo / desculpa / explicação de nos salvar dos comunistas tomou o poder na marra (aliás, com considerável mesmo que não unânime apoio popular, diga-se de passagem) e… pôs-se enigmaticamente a estatizar tudo e a implementar um plano de “crescimento” 110% keynesiano com o pé fundo no acelerador dos gastos.

A política econômica consistia em pegar dinheiro emprestado de outros países, e quando a farra de crédito internacional acabou, ela transformou-se em, er, basicamente imprimir dinheiro, honrando-nos com uma inclusão nos livros-texto de economia como exemplo clássico de hiperinflação e do que não se deve fazer. Note-se que o gravíssimo fenômeno de hiperinflacão é comumente associado a guerras e outros acontecimentos similarmente drásticos que forçam ou são apresentados como justificativa para o governo passar a gastar muito, muito, muito, mas muuuito mais do que dispõe. Nós podemos nos orgulhar de termos conseguido produzir isso sem que estivéssemos gastando o dinheiro para salvar o país de nenhuma catástrofe iminente.

Paralelamente, a xenofóbica política de comércio exterior incluía por exemplo substituir e minimizar importações a qualquer custo. Isso foi culminar em grotesquidões como a maravilhosa lei de reserva de mercado de informática de 1984, que teve como um de seus principais resultados absolutamente destruir qualquer possibilidade do Brasil ser internacionalmente competitivo nesta área. Outro resultado foi atrasar e encarecer a informatização da economia brasileira. Quanto às empresas “fomentadas” por essa política absurda e desastrosa? Consistiam em comprar peças no exterior e montar nacionalmente cópias toscas de projetos estrangeiros por preços inacreditáveis. Implodiram todas assim que a reserva de mercado acabou.

Enfim, veio a Nova República e coisa e tal, algumas heterodoxias bizarras foram tentadas, e surrealmente uma boa parte da reversão dessas alucinações para seguir em direções mais ortodoxas somente se deu sob figuras esquerdófilas.  Aliás, sublinhemos este ponto. Isso é realmente muito surreal. O governo militar, supostamente de “direita”, foi extremamente estatizante e obstruiu inacreditavelmente o livre comércio. Levaram o país à falência, cansaram de brincar e passaram a batata fervente da inflação fora de controle adiante. Então Sarney, previamente líder do partido pró-governo militar, resolveu que a solução para a inflação era… proibir os preços de aumentarem (!). E incentivou a população a chamar a polícia se visse algum preço aumentar. Seria engraçado se não tivesse de fato acontecido. Mas eis que então surge Collor, e tendo majoritário apoio popular no papel de oposição ao socialismo lulático, resolveu literalmente… confiscar a maior parte do dinheiro da economia, num dos planos econômicos mais inconstitucionalissimamente absurdos de todos os tempos. Incompreensivelmente, foram Itamar Franco, então Fernando Henrique, e finalmente o Lula que retornaram a políticas fiscais e financeiras minimamente ortodoxas, as quais foram infinitamente mais bem sucedidas que os 30 prévios anos de pseudo-direita.

O que nos leva à questão : se é razoável associar a “direita” com neoliberalismo adorador do deus mercado e coisa e tal como querem as esquerdas, onde é que se esconde essa tal temível e assustadora direita no Brasil? Esteja onde estiver, certamente não pode ser reconhecida nessa sucessão surreal de estatólatras que precederam os atuais estatólatras. O único politico que consigo identificar como remotamente liberal no sentido clássico da palavra é Roberto Campos, que apesar de ter sido deputado e senador, estava em tal minoria que nunca conseguiu aprovar nenhuma de suas propostas liberalizantes.

Estaremos hoje em situação melhor? Onde estão os políticos de expressão que lutarão pelas reformas necessárias para permitir que um cidadão qualquer abrir uma empresa seja, do ponto de vista institucional, simples, rápido, barato e seguro? Onde estão os intelectuais que defenderão que isso é mais importante do que qualquer plano estatal para “incentivar” o crescimento ou “proteger” certas indústrias? Onde estão os brasileiros que dirão “chega” para essa concepção de estado que nos mantêm aprisionados eternamente em berço esplêndido?

Novamente Motoqueiros Na Minha Janela

Friday, December 11th, 2009


Voltam os motoqueiros um ano depois

Há um ano, eu publiquei um vídeo no qual uma enorme procissão de motoqueiros passava pela minha janela. E não é que exatamente um ano depois aí estão eles de novo? Dessa vez eu percebi mais rapidamente o que estava acontecendo e consegui gravar um trecho maior. Agora me digam, tem algo de especial no dia 15 de novembro que todos os motoqueiros do universo queiram comemorar?

Esquilos

Thursday, December 10th, 2009


Esquilo na Universidade de Columbia em Manhattan

Eu já comentei antes o quanto certos aspectos simples da vida cotidiana por aqui nos supreendem ao divergirem inesperadamente do que estamos acostumados.  Uma dessas pequenas coisas são os esquilos. No Brasil, estamos acostumados a ver pombos em todas as praças, e é tudo muito normal e comum. Mas aqui existem esquilos. Eles estão em toda a parte, e andando pelas ruas, praças, estacionamentos. Inclusive em Nova York. Claro que é preciso haver árvores ou um mínimo de verde, e você provavelmente não vai dar de cara com um esquilo no topo do Empire State assim como não vai encontrar um pombo dentro de uma loja do Rio Sul. Mas eles estão por aí, e fazem parte do cenário.


Esquilos na Universidade de Princeton
(começando aos 50 segundos do vídeo)