Tanja olhando meio de lado
pra evitar o espelho
Eis que uma tal de Tanja Krämer resolve novamente escrever sobre mim.
Ela já havia escrito antes, mas este texto dela era tão constrangedoramente superficial e oco de qualquer coisa que parecesse um argumento que nem deu vontade de comentar qualquer coisa. O tipo de texto que certas pessoas escrevem quando acham que estão tão absolutamente certas que isso as isenta de dizer qualquer coisa consistente sobre o assunto – o que ironicamente tende a acontecer precisamente quando elas têm tão poucos argumentos que a solução é atacar o interlocutor ao invés de suas idéias. Achar que o meu texto tivesse qualquer coisa a ver com “eu me basto”, ou com egoísmo, ou com narcisismo, quando o próprio trecho que ela mesma cita (!) diz explicitamente que nós precisamos fazer as pazes com o fato de que há coisas que só o outro pode ser, e nós não, demonstra algo que beira o analfabetismo funcional (ou desonestidade patológica, não que sejam mutuamente excludentes).
Mas então, eis que tomada de revolta com a “porralouquice” do que digo, resolve escrever novamente, desta vez ainda mais explicitamente sobre mim, que ela absolutamente desconhece, mas que aparentemente supõe conhecer através de interpretações, digamos, imaginosas dos meus textos.
Refutar as coisas que ela fantasiou sobre mim seria uma bobagem para todos os envolvidos.
Refutar o que ela escreveu sobre o que eu escrevi já fica um pouco mais relevante, mas não muito, dado o grau de obtusidade (ou desonestidade) com que o texto foi lido.
Ora vejamos, eu escrevo que
Os homens, por outro lado, querem gastar quase zero de tempo e esforço em cuidar de sua aparência, em serem socialmente aptos, em serem atraentes, em ficar tentando entender o que poderia tornar sua imagem mais sexy. E ao mesmo tempo, seu primeiro e mais prioritário interesse é ter acesso a sexo. Agora me digam, como e em que termos pretendem ter acesso a sexo com essa atitude? O leitor pode tirar suas próprias conclusões.
E mais adiante escrevo ainda que
o homem médio provê serviços afetivos absolutamente medíocres às suas parceiras. Age de forma quase autista e não faz qualquer esboço de tentativa de aprender como agradá-las emocionalmente, ou mesmo de entender quais são as suas necessidades; em geral, inclusive, legítimas e profundas necessidades psicológicas de suas parceiras são tratadas como inconvenientes a serem tanto quanto possível contornados ou ignorados.
Disto ela conclui que
Na verdade, ele [o texto] é um produto para homens ressentidos que não conseguem namorar quem eles querem. Claro, a culpa nunca é deles. No caso, é do sistema malvadinho.
Ironicamente, parcialmente ela tem razão : é para eles também. Ó homens ressentidos do mundo, que acham que não têm qualquer responsabilidade em causar seus próprios infortúnios, e que se sentem tentados a dizer que “a culpa é do sistema” : leiam o que escrevi acima e acordem.
Agora, dos trechos acima deduzir que eu estou apoiando essa cegueira? Er, não.
Ocorre que o texto como um todo também é para as mulheres ressentidas do mundo, que acham que todos os seus problemas, de relacionamento ou não, são culpa dos homens. E dessa crítica dona Tanja não gostou nem um pouco. Que audácia, a minha, dizer certas coisas!
Que tal então apontar fatos que contradigam o que eu escrevi? Explicar como algumas das questões que eu levantei não são reais, não correspondem a como as coisas efetivamente ocorrem? Discutir pontos específicos do que eu de fato disse (ao invés de o que ela psicografou) e refutá-los se achar que pode?
Mas não, não. O “argumento” de dona Tanja se resume a “ele é o Power Ranger verde”. E se ele critica a intolerância histérica com qualquer coisa, naturalmente só pode ser porque secretamente quer justificar seus próprios vícios e falhas.
E é ai que a coisa começa a ficar interessante. Como crítica ao que eu escrevi, é só um festival de infantilidades. Mas como instrumento de retórica, começa a valer a pena comentar.
Então vejamos, ela cita um texto que escrevi sobre prostituição. Deixo claro no texto e reitero aqui que não vejo absolutamente qualquer problema moral com prostituição, e que pelo contrário, vejo problemas de várias ordens em criminalizá-la, e defendo que fazê-lo provavelmente causa bem mais mal do que bem à sociedade. Conclusão final aliás igual à qual chega (embora não pelos mesmos caminhos)… São Tomás de Aquino. Pelo raciocínio Tanjático, “Como não concluir que São Tomás de Aquino está advogando em causa própria?”. Ele só pode mesmo ser um perdedor total que se deu ao trabalho de enrolar com um monte de blábláblá sobre teologia quando na verdade o que ele queria mesmo era pegar umas putas.
Essa é uma das estratégias retóricas mais antigas do mundo, e é impressionante como o tempo passa e as pessoas continuam a usá-la. Impressionante mas não surpreendente, já que para certos segmentos da platéia continua tendo lá seu efeito, nem que seja de desviar a atenção do que não se quer ver discutido.
Vai na direção genérica do que disse (acho) Millôr Fernandes traduzindo Arthur Bloch :
1. Se os fatos estão contra você, conteste a lei
2. Se a lei está contra você, conteste os fatos
3. Se os fatos e a lei estão contra você, berre histericamente
Então é como quando um político resolve fazer campanha para acabar com as tolas e perniciosas leis anti-drogas e então tem que enfrentar “acusações” de ser um drogado. É como quando alguém expressa a opinião de que abortos não deveriam ser ilegais e então tem que ficar ouvindo “acusações” de ser “a favor” do aborto. É como quando um menino nos EUA decide que não vai recitar o juramento de fidelidade à bandeira americana até que realmente haja liberdade e justiça para todos, incluindo os gays, e então tem que ficar ouvindo “acusações” de ser gay.
10-Year-Old Who Refuses to Say ‘Pledge of Allegiance’
Until Gays Have Full Equality
É como quando os liberais clássicos anunciam que são a favor da manutenção da propriedade privada dos grandes meios de produção e então têm que ouvir “acusações” de que eles querem mesmo é que os pobres morram. É como quando certas pessoas se colocam contra a ação afirmativa… para então terem que ficar ouvindo “acusações” de na verdade serem racistas.
Então vai dar em “Dawkins é burrão” e “Rousseau não pegava ninguém, haha!”. Esse tipo de reação é tola e superficial, mas quase sempre é muito pior do que isso : é desonesta e manipulativa, e costuma indicar a total inexistência de (ou incapacidade de articular) argumentos reais. Se os fatos e a lei estão contra você, berre histericamente.
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Só pra completar, sobre o natal : não, dona Tanja, não é uma festa religiosa. É uma festa pagã que comemora o solstício de inverno, que já era comemorada muito antes da cristandade existir, e que muito provavelmente continuará sendo comemorada por muito tempo depois da cristandade ir parar nos livros de história. Evidentemente é muito mais fácil se apropriar de algo que já existe e dizer que foi você que inventou do que convencer todo mundo a mudar seus costumes. Então que beleza, vamos dizer que o dia de ano novo é o aniversário da data em que Moisés achou suas ceroulas perdidas e agora temos uma nova festa religiosa comemorada por bilhões.
Ou opcionalmente podemos acreditar nisso aqui :
A Criancinha-Deus é o pão do céu. O Natal é a nossa salvação, quando as trevas se dobraram ao Menino-Deus (nosso pão do céu).
Realmente é patético o que a religião faz com as pessoas. Leva elas a escreverem coisas delirantes como essa, para então ser usada como desculpa esfarrapada para justificar dizerem com todas as palavras que “Intolerância Implacável é a Verdadeira Bondade” enquanto citam “1984″. George Orwell aplaudiria de pé.





